By Beatriz Dale

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Ilha enamorada de mim

Bali não te abraça. Te testa. É que nem homem safado. Que te chama, te beija, depois te larga e não liga. Só que é homem de cangote cheiroso, daquele tipo gostoso, que te chama de novo… de novo… de novo. Ilha-homem joga comigo mas, meu amigo… Não vês que também sou caprichosa? Tu me…

Destacado

Nosso Ceilão

A escolha do destino para as férias aqui em casa sempre passa pelo filtro inicial que descarta uma série de destinos prováveis. É preciso haver natureza, um certo descompromisso e estranheza, aventura. Esta peneira filtra as capitais e nos leva ao interior, ou a países exóticos que talvez jamais visitássemos se não fossem tão perto daqui. Esse primeiro parágrafo me parece um tanto vencido para publicar no blog em setembro, peço desculpas. Ainda assim, não pude deixar passar em branco a experiência deste verão. Ao Ceilão que trataram de mudar o nome para Sri-Lanka, fomos todos. Na mala levei a…

Endereço incompleto

Comum aqui é voltar pra casa no verão. O novo comum. Porque nunca chamei julho de verão. Nem tenho mais casa no Brasil. Se em “casa” as apresentações vem seguidas das amizades que se tem em comum, ou referências ao trabalho, a ordem aqui é o país de origem e o tempo de moradia. Me cansa o protocolo, a repetição, mas não vejo saída. Junto da nacionalidade de alguém vem a forma como você a cumprimentará dali em diante, a interpretação caricata de sua família, cultura, educação e o pacote. Na metade do ano seus “novos velhos amigos de infância”…

Vai se f*&#!

Da vaidade eu sei. Minha amiga legítima, porque somos sinceras uma com a outra. Às vezes a gente se estranha, briga e eu faço com ela o mesmo que com os filhos, só que a eles digo que sentem na escada para pensar e para ela, boto mesmo de castigo. Não falo dela que me mostra…

Hiato

Di-a Pa-ís Idei-a. Quantos hiatos cabem em quinhentos e trinta e dois dias vividos aqui? Quanto neste país cabe de mim? Me falta ideia. O ano da chegada é embaçado na montanha que se desmonta diariamente em caixotes para desfazer. É de reconhecer semelhanças com o que era familiar antes. É de procurar azeite Borges,…

Same shit.

Antônia chora porque perdeu o par ou ímpar. João chora porque quer dormir na minha cama. Eu choro de cansaço. Pedro chora escondido Cuca grita pra chorar Marília chora de saudade Carlos chora com jazz. Regina chora com carinho. Tarsis chora e sai de fininho. Gabriela chora pela filha. A filha chora por ela. Cada lágrima…

Fora

Fui criança que sobe, que corre, que cai. Era como todas menos porque tinha um “cantinho”. Ficava entre a parede e o piano branco que hoje pensando, deveria estar nela encostado. Talvez não estivesse por isso mesmo. Ali morava com várias de mim. A que sobe. A que corre. A que cai. Tinha a bochecha quente, o pescoço de brotoeja, pés sempre descalços e encardidos, mas piolho não tinha. Nem medo de bicho, nem nojo de minhoca. Era no silêncio do cochilo dos meus pais que via lágrimas de açúcar a escorrer do pinheiro, formigas subindo nervosas pelo graveto enfiado…

Receitas de Feiticeira

                  Chef é cientista. Padeiro é matemático. Cozinheira é feiticeira. Da quina da pia de granito azul da casa onde eu morava, gostava de “pastorar” (como ela mesma dizia), Verônica. Quase tão menina quanto eu, picava cebola com movimentos rapidinhos da faca afiada enquanto rodava as mãos e chorava de rir. Veio de Guarabira com dezesseis anos e foi trabalhar lá em casa, sem saber de cozinha, escada rolante, elevador, nem estrogonofe. Meus dez anos de cidade ensinaram a ela sobre elevadores. Os dezesseis dela de roça, me ensinaram feitiçaria. Aprendeu tudo…

Da coxia

                    Coajuvantes também têm categoria. Ganham Oscar. A sensação de que estão em muitos filmes, de que quase sempre representam o mesmo personagem talvez seja o que os deixa ali, presos num roteiro sobre a máfia, uma comédia romântica ou a Segunda Guerra Mundial. Dificilmente sabemos seus nomes e quando referidos, dizemos :”O filme é com aquele cara, aquele sabe? Aquele que faz um monte de filmes….”. Precisei de um tempo nas duas últimas semanas. Deixei de escrever aqui, desliguei as notificações de mensagens de todos os meios e vivi dias de…

Onde você for Deus vai atrás.

  “Minha mãe me disse há tempo atrás Onde você for Deus vai atrás Deus vê sempre tudo que cê faz Mas eu não via Deus Achava assombração, mas… Mas eu tinha medo! Eu tinha medo!” PARANÓIA – Raul Seixas     Na capela da escola onde estudei, acima do portal imponente da entrada havia um triângulo com um olho dentro. Diziam que era o olho de Deus, o “Olho que tudo vê”. Eu morria de medo daquilo. Desde tirar uma meleca e grudar embaixo da carteira, até coisas mais sérias como jogar papel higiênico molhado no teto do banheiro…