Um ano

Semana passada fui com meus alunos fazer uma aula prática no centro de Zaragoza. Tinha tempo que não andava por lá. Desde o confinamento, com todas as restrições de movimento e os riscos de contágio, vamos pouco ao centro. Creio que a última vez foi antes do Natal, quando levamos as crianças para ver a iluminação natalina, uma tentativa da prefeitura de animar as vendas do comércio local. Sentada em um banco da principal avenida da cidade, olhando a vida e as pessoas passarem, não pude deixar de pensar neste ano de pandemia. Dia 14 vai fazer um ano do confinamento total da Espanha. Um ano em que palavras, que pensávamos nunca pronunciar, passaram a ser parte do cotidiano: toque de recolher, máscaras obrigatórias, fronteiras fechadas, comércio fechado, escolas fechadas, trabalho on line, proibição de viagens, morte. São tantos dias de medo, angustia e mudanças jamais desejadas, que fica difícil até começar um texto. Mas refletir sobre o que vivemos é nosso dever. Colocar palavras no papel uma espécie de terapia.

Divido este ano pandêmico em duas etapas: o confinamento duro e o pós. Já contei aqui que na Espanha tivemos um confinamento total por dois meses. As crianças foram proibidas de sair. Não podiam nem sequer dar um pequeno passeio para tomar sol. O únicos trabalhos permitidos eram os essenciais. Apenas supermercados, padarias e farmácias estavam abertos. Foi traumático. Mas, por outro lado, havia esperança. Todos os dias às 20h saímos para a janela e aplaudíamos a todos aqueles que lutavam contra a pandemia. Um vizinho colocava música. Nos cumprimentávamos de longe, nos dávamos ânimo. Foi a época em que, se você ligava para a polícia e contava que uma criança ia fazer aniversário, os policiais vinham e cantavam Parabéns para Você debaixo da tua janela. Tocavam a sirenes e a criança ia dormir feliz. Foi a época em nos animávamos com festas no Zoom, com ensino à distância, víamos vantagens no trabalho em casa.

A partir de maio de 2020, nos deixaram sair de casa. Era primavera, o calor começava e com ele veio a esperança de que o imenso sacrifício tinha sido suficiente. Aí vieram as regras da chamada “nova normalidade”: máscaras obrigatórias em todos os lugares (abertos e fechados), as distâncias, os limites de números de pessoas, o medo de encontrar, o medo de reunir. O medo.

A Espanha é um país que vive do turismo. Representa uma parte mais que considerável do PIB. Isto fez com que as regras, tão duras na primavera, fossem bastante relaxadas no verão. A responsabilidade foi transferida do governo para o indivíduo. Era o indivíduo o responsável em parar o vírus. Mas o cidadão também quer ver sua família. Também quer trabalhar. Também quer voltar a experimentar a normalidade antiga, não a nova. Colocar o peso no ombro individual, e não do coletivo, sem regras claras e muita contradição, trouxe de volta o vírus, que nunca tinha desaparecido totalmente, e a terríveis restrições.

O outono também trouxe de volta algo que sentíamos muita falta: a escola. Mesmo com muitas restrições, máscaras e distâncias, a volta das aulas presenciais foi recebida com muita alegria. E depois de quase seis meses de classes presenciais, estamos todos muito mais confiantes: nenhum contágio na escola dos meninos. Alunos, professores e funcionários com saúde. Provando que, quando se quer, é possível.

Como estamos agora? Cansados e desanimados. Pior: nos acostumamos às limitações. Já não desejamos. O zoom me dá taquicardia. A incerteza é o único certo. Minha filha me pergunta se poderá convidar a quatro amigas para celebrar seus nove anos. Não. Com sorte, uma. A esperança do verão passado se acabou. As segundas e terceiras ondas nos trouxeram números iguais, ou piores, aos que tínhamos há um ano, sem a esperança e a solidariedade vividas naquele momento.

O mundo passou a ser um lugar bem maior. Fazer 300 km de carro é quase tão impossível quanto três mil. Até ir ao centro da cidade parece um grande passeio. Ir ao Brasil, então, se transformou em um sonho distante. Aliás, o Brasil é meu maior motivo de angustia e preocupação. E um capítulo à parte nesta tragédia. Neste momento estamos com confinamento regional. Podemos circular somente por nossa província e deverá continuar assim até depois da Semana Santa.

Nosso círculo de amizade se reduziu. Somente vemos presencialmente aos mais próximos. Sempre ao ar livre e de máscara. Não visitamos ninguém e ninguém nos visita.  Mas, pelo menos, nos vemos. Esta pouca convivência social nos ajuda a nos manter mentalmente saudáveis. Se já não vamos ao cinema, nem ao bar, vamos aos parques da cidade. Se por um lado, as crianças estão cada vez mais informatizadas, também passaram mais tempo ao ar livre.

Perdemos o contato físico, já não abraçamos, nem beijamos. Também perdemos a percepção do outro com o uso contínuo das máscaras. Minha filha nunca viu a cara do seu professor, embora conviva com ele diariamente. Um dos meus alunos baixou a máscara um momento para tomar um gole de água e vi que tinha bigode. Foi uma surpresa. Temos que imaginar a metade da cara de quem não conhecíamos antes da pandemia. Quando nos permitam ir sem máscara pela rua, provavelmente não reconhecerei a muitos.

Acho que ainda é cedo para dizer o que aprendi. Quando tudo for história e memoria, saberemos verdadeiramente o que ficou. Neste estranho ano, só posso deixar aqui minha admiração pelos meus filhos, que aguentaram sem reclamar, que compreenderam melhor que ninguém a gravidade do momento e que sempre obedeceram a todas as normas, e pela minha mãe. Ela, que nas nossas conversas, sempre me ajuda a colocar tudo em perspectiva.  Conta como na sua infância se morria de tuberculose, de sarampo, de doenças para as quais hoje temos vacina. Ela me diz:

– Sempre foi assim. Um dia vai passar.

Então é isto.  Um dia vai passar e hoje este dia está mais perto que há um ano. Vamos em frente.

Comentários

  1. No Brasil, estamos vivendo do mesmo modo, mas vai passar. Felizmente, a campanha de vacinacao conecou, com nossos pais e avos vacinados, ficamos maus tranquilos

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