“Todo abismo é navegável a barquinhos de papel” *

Os dias viraram semanas, as semanas viraram meses, os meses viraram um ano. Parece que foi ontem, tão rápido quanto a eternidade. Em que parte do caminho será que estamos agora? Estamos longe ou perto, e de quê?

Lembro bem de como foi destrambelhada a primeira reunião pelo tal do Zoom, em março de 2020: as amigas da vida inteira, cada uma num quadrado, nem todas cabendo na tela do celular, mas todas ainda falando ao mesmo tempo, como tínhamos feito por décadas, sem entender direito que, dali em diante, para que a gente pudesse se ouvir, teria que ser de outro jeito.

Teria que ser uma de cada vez. Assim como os dias que, de repente, teriam que ser vividos um de cada vez. Sem planos. Sem promessas. Sem garantias sobre a manhã seguinte.

– Até quando vocês acham que vai o isolamento? – provocou uma.

– Olha, antes de julho, difícil que acabe – arriscou a mais pessimista.  

Lembro que algumas pessoas preenchiam o tempo contando azulejos na cozinha, fazendo artesanato na sala, arrumando gavetas no quarto. Outras eram soterradas pela avalanche do ‘combo’ home office/trabalho doméstico/aulas online das crianças. Cada um no seu quadrado. Ao mesmo tempo, vinha o abatimento com as notícias sobre dor e morte. A revolta com a roubalheira na saúde pública no Rio de Janeiro. No Brasil. A perplexidade com a postura de quem a gente não diz nem o nome. Os protestos nas janelas. “O trágico não vem a conta-gotas.”*

O tempo foi passando, e cada vez mais o #vaipassar se parecia só com uma hashtag, não com uma promessa concreta de realidade.

– Quem sabe no Natal? Será que em janeiro? – a gente se perguntava pelo Zoom, que, àquela altura, já éramos craques em manejar.

Com o Brasil partido ao meio, metade seguiu no autoisolamento. A outra metade lotou bares e praias. Então veio a nova onda, que a gente já não sabe mais se é a segunda, a terceira, ou a primeira que nunca passou. Mais dor, mais perplexidade, mais mortes. Recordes de mortes. “Os tempos se seguem e parafraseiam-se.”*

Enquanto as amigas Mães em Rede da Europa se entristecem com os novos lockdowns, aqui no Brasil nos desesperamos porque nunca tivemos lockdown. Nunca tivemos leitos de CTI. Nunca tivemos oxigênio. Nunca tivemos direção. Nunca tivemos jeito. Ao menos temos algumas vacinas. Ao menos podemos fazer o sinal da cruz a cada avô, avó, mãe, pai que consegue receber a primeira dose. E rezamos para que os novos carregamentos de vacinas não demorem tanto assim a chegar. E para que nenhum idoso mais seja vítima das criminosas injeções de ar. Para que todos consigam a segunda dose. “A bonança nada tem a ver com a tempestade.” *

Vamos seguindo, cada um no seu quadrado – já desanimados para contar azulejos e fazer artesanato, já resignados com a avalanche das jornadas. Mas, em meio a tudo isso, há vitórias pessoais. Algumas são bobas, como aprender a pintar os cabelos brancos em casa. Outras, mais difíceis e ainda a caminho, como largar as pílulas para dormir. E há as bem grandes, como finalmente compreender a finitude da vida e ser impelido a desengavetar planos esquecidos, a negociar pactos com o futuro, mesmo sem saber se estamos perto ou longe dele.

  • * Empréstimos de Guimarães Rosa (“Desenredo”, 1967)

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