Sobre Pronomes Possessivos e Vantagem

Foi sem motivo importante que pensei em tirar do vocabulário os pronomes possessivos. Surpreendeu-me como tudo cresceu quando disse apenas “O jardim é tão bonito” e não “O MEU jardim é tão bonito”. Magicamente passaram a ser belos todos os jardins e também o meu, como de fato são porque guardam as marcas de uma história de abandono ou de zelo, e independente do pronome possessivo a que pertencem, são mesmo é da Natureza e mais ninguém.

Não foi sem motivo que convidamos aquele casal para o almoço. Foi em retribuição ao jantar que nos ofereceram há alguns meses atrás. Frequentam a mesma escola as nossas filhas e recém chegados ao Oriente Médio estão naturalmente, à procura de uma rede social. Naquele jantar, não notei nada importante porque também havia outro casal de quem somos amigos e a conversa se dissipou entre um gole e outro de vinho. Mas no almoço aqui em casa voltei a pensar nos pronomes possessivos.

O homem sentava à minha frente. A cada garfada de bacalhau, olhava o telefone pousado sobre o guardanapo à sua direita. Vez por outra levantava os olhos do prato ou da tela, fazia um muxoxo qualquer e fingia acompanhar o assunto. Pedro, sentado ao lado, aos poucos desistia do papel de anfitrião simpático e concentrava-se em providenciar mais vinho até a hora de, finalmente, poder oferecer o café. Em si mesmado, afogado nos pronomes “meu” e “minha”, o sujeito servia-se de vinho sem oferecer aos demais. Lia e relia alguma coisa muito interessante em seu telefone até que mencionamos ter tomado a vacina do COVID e ele prestou atenção.

Pedro falava contente por estar em Dubai em momento tão complicado em todo o mundo. Às risadas dizia que tomaria nos dois braços se pudesse e do quanto sentia pelos colegas em quarentena na Inglaterra e também pela família no Brasil. Perguntamos então às visitas se haviam tomado a vacina. Antecipei a resposta negativa, esperando a justificativa mais comum daqueles que aguardam a Pfizer. Naquela fração de segundo cogitei o discurso daqueles que temem os efeitos colaterais, mas jamais me ocorreu a deformidade da resposta: “Não tomamos porque aguardamos alguma vantagem”.

Apesar de vantagem ser sinônimo de benefício, a escolha da primeira soa mais egoísta e negativa. Ignorei o conhecimento do senhor e esclareci que a vacina combinada ao uso da máscara e cuidados de higiene são a única maneira de acabar com a pandemia. Ressaltei que mais que uma escolha pessoal, era nosso dever de cidadão. Foi quando vi pendurados na gola da camisa, escorrendo pelas hastes dos óculos, deslizando por cima da mesa, os pronomes possessivos “meu”, “minha”, “meus” e “minhas”. As vantagens, ele dizia, estavam na facilidade para comprar passagens aéreas, na entrada em países onde a pandemia baixou preços e o turismo está em sua melhor fase. Ele ilustrava com sua estada em Florença no último abril, com a cidade vazia, sem “aquela quantidade de coreanos e chineses por todos os lados”. Em seguida a mulher engrenou que com os planos que têm para o Serengeti em julho, talvez haja vantagem em tomar porque temem ser impedidos de retornar a Dubai vindo da Tanzânia sem que estejam vacinados.

Era hora de servir o café. Não consigo continuar esta conversa.

Após a despedida, ao fechar a porta da sala, a casa ficou mais bonita. Esta casa, que está nossa porque pertence a alguém que não conheço. Que um dia será de alguém que ainda não existe ou quem sabe vai virar areia outra vez. Uma casa sem pronomes possessivos mas cheia de NÓS.

Cera escorria pelos castiçais, a luz das velas iluminava as flores sobre a mesa desarrumada e Pedro lavava a louça. Ele vira que aquilo que o homem olhava no telefone era um aplicativo da Bolsa de Valores. Era isso que o deixava como um viciado em heroína, sacudindo as pernas por debaixo da mesa a cada alta do mercado de ações e impedindo que interagisse com os demais. Pobre homem. Sua visão sobre as “vantagens” da vacina, o preconceito contra os chineses e nenhuma vez sequer ter servido outro copo além do seu, foram o suficiente. Pedro e eu, numa breve troca de olhares atestamos que a retribuição estava feita e que nunca mais queríamos encontrar estas pessoas.

Não vemos… vantagem.

Os vários copos de ontem precisavam de uma noite de descanso no meio para desanuviar as ideias. Tomada por julgamentos, eu tentava enxergar neles algo além das nossas opiniões tão opostas sobre o que fazer com a vida. Não é preciso justificar semelhanças, mas nas diferenças vejo imenso desafio. Afinidade não se encontra ao acaso e tenho por dentro os pedaços dos amigos que achei pela estrada. Eles são meus, com todos pronomes possessivos porque juntos encontramos sempre o espaço para celebrar o NÓS. E nisso sim, vejo imensa vantagem.

Comentários

Comentar