O eterno presente

“- Mamá, você sabia que o futuro não existe?”

Carol me disse esta frase no momento que a segunda onda da Covid está no seu auge e ameaça com nos dar um caldo e levar-nos todos até a arrebentação, com o perigo de muitos afogados pelo caminho.

Olho espantada para a menina de oito anos, me perguntando quando se transformou assim em uma filósofa.

“- Sim, mamá. Não existe. Porque quando o futuro chega, já não é futuro, é presente. Quando chegar o amanhã, são será mais amanhã, será hoje.”

Ela tem razão, claro. Mas o que eu ainda não pude explicar para minha filha é que o futuro sim existe. Existe no sonho e no desejo. Na esperança e na fé. Precisamos do futuro para viver o presente. Não é o caso de viver de forma antecipada e de não aproveitar o hoje. O futuro existe para que podamos fazer planos. Sonhar com as próximas férias, com os meninos crescidos, como os abraços que daremos. Mas sim, atualmente só temos o presente mesmo.

O eterno presente começou durante o confinamento. É só hoje. Viver o hoje. O futuro era tão incerto que era melhor excluir-lo do pensamento. O sentimento foi de alívio. Sim, era o que sempre nos contaram: aproveitar o tempo e as pequenas coisas. Fazer pão, brincar com os meninos, yoga na varanda, estudar… o presente se transformou em toda a vida.

Mas na primavera começamos a dar nossos primeiros passos para fora. No verão, fomos liberados. Mas o novo normal deixou o futuro para somente o imediato.

“- Vamos à praia?”

“- Fazemos a reserva. Na véspera, decidimos.”

Assim foi. Impossível planejar nada com mais de uma semana de antecedência. Havia muito condicionantes: que ninguém se contagiasse, que o local de destino não estivesse fechado, que o local de saída estivesse aberto e um longo etc. Nosso futuro tinha dois ou três dias apenas.

Em agosto comprei mochilas novas para os meninos para a volta às aulas. Contei para as amigas e muitas me disseram que estava comprando mochilas para ir do quarto para a sala. Poucas acreditavam na reabertura da escola. Foi minha aposta no futuro mais longo. Apostei que em um mês as escolas abririam. Porque futuro, como disse, é desejo. Sonho com a volta de uma mínima normalidade para as crianças, para que pudessem rever seus amigos e professores.

Este futuro foi possível e tivemos a necessidade de sonhar um pouco mais longe. Até sermos cobertos outra vez pela segunda onda.

Aragón, onde vivo, tem algumas das restrições mais duras da Espanha, que se somam às que estão em vigor em todo o país, como o toque de recolher às 23h. Mas aqui, antes desta hora, às 20h, todas as atividades não essenciais têm que fechar. Bares e restaurantes só podem servir na calçada e com 20% de capacidade. (Com a tempo que anda fazendo, não devem ter muito trabalho). Academias de ginásticas fechadas. Proibição de reunião de mais de seis pessoas. Não se pode entrar, nem sair da cidade sem uma justificativa válida. Proibição de todas as celebrações, como casamentos. Funerais com assistência restrita.

Os meninos perguntam se no Natal poderemos estar com os avós e os tios. Não sabemos. Por via das dúvidas, já estou avisando que, provavelmente, não. Se poderemos ir na neve este ano. Não sabemos. Se poderemos convidar algum amigo para dormir em casa. Não sabemos. Quando vai chegar a vacina? Não sabemos. Quando vamos no Brasil? Não sabemos.

O eterno presente é duro e uma ameaça para nossa esperança. Cansa. Nao estamos acostumados a ver o tempo deste modo. É uma prova de resistência. O futuro nunca foi tão necessário. Porque continuamos sonhando com ele. Não com o imediato, do inverno que chega e nos mete medo. Mas com o do próximo verão, quando esperamos estar todos vacinados e vivendo novamente as saudosas aglomerações.  

Carol, que continua interessada no tempo, seguiu com suas perguntas:

“- E o passado, existe?”

Sim, Carol, o passado existe. Para sermos quem somos. Para perdoar e seguir. Para ter saudade e desejar um novo futuro.

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