Sinal Amarelo: Atenção

Sinal amarelo… Vem imediatamente na cabeça aquele que todos aprendemos que em qualquer lugar do planeta terra te comunica: fique atento, olhe com cuidado, mas ainda não pare. 

Nesse caso, confesso que parei. Dei o “pause” quando me pediram para produzir, em outro grupo, algum conteúdo sobre o setembro amarelo . Travei porque para mim é muito difícil tocar nesse assunto. Resisti porque não acredito que se possa tratar do tema de maneira simples e superficial, em respeito e empatia por aqueles que sofrem. E não consigo nem dimensionar o tamanho da dor de quem chega a pensar em tirar a própria vida. 

Apertei o “stop”, dei um “rewind” no meu histórico familiar, em que tivemos um episódio de tentativa de suicídio.  Senti  no peito de novo a dor que senti na época. 

Segui o dia em frente, “deixa quieto”…, mas deixar quieto nesse caso é deixar o estigma vivo, a ferida aberta sem cura. Minhas companheiras aqui do “Mães em Rede”, curandeiras natas, me apoiaram a dar voz a essa história. É disso, e assim que se trata: precisamos quebrar esse tabu. E se para mim é quase intocável , pense em quem sofre na própria pele. 

Cerca de 60% das pessoas que morrem por suicídio não buscam ajuda. Já pensou se isso se aplicasse a outras doenças? Imagine se 60% das pessoas com fraturas não fosse ao médico ou se 60% dos pacientes com apendicite não se tratasse e você vai perceber que é estranho que tanta gente não busque ajuda. Isso porque nós, como sociedade, não falamos do assunto, não informamos as pessoas.

Não sou capaz de dividir minha história porque ela não é minha, eu só fui uma coadjuvante, mas vou contar aqui a história de Mike Emme, onde de fato começou o movimento do setembro amarelo. 

Em 1994, Mike tinha 17 anos e era mais um adolescente aparentemente normal que vivia com seus pais Dale e Darlene Emme nos Estados Unidos. De personalidade dócil, era amável com as pessoas, caridoso e sabia tudo de mecânica. Resgatou, comprou, restaurou e pintou de amarelo brilhante um Ford Mustang 1968 abandonado. Mike a partir de então era conhecido na cidade como Mike Mustang. Mas ele sofria e ninguém percebeu seu sofrimento, até que surpreendentemente ele tirou sua própria vida. 

Diante do choque, seria muito fácil calar. 

Suicídio não é notícia para não se estimular o “Efeito Werther” , personagem do livro de Goethe que comete o suicídio. A OMS desaconselha noticiar suicídios, para evitar que a exposição de casos seja o gatilho de mais mortes. Contudo a exposição não é o que causa o suicídio: as pessoas que tentam o suicídio depois de ler ou saber de outros casos de suicídio, já tem tendência e se encontram no grupo de risco.

 Pior esconder, pior paralisar. Como dizia  minha avó, quando eu era uma adolescente preguiçosa:  o que mexe está vivo. 

Quando durante os preparativos para o funeral, os amigos de Mike incrédulos do que acontecera,  perguntavam aos pais do garoto o que fazer, os pais responderam, por favor não cometa o suicídio… busque ajuda . 

Os adolescentes amigos de Mike produziram 500 fitas amarelas de papel com a  frase “por favor não cometa o suicídio, busque ajuda” com o número de telefone de pessoas e lugares onde se poderia buscar ajuda. Distribuíram as fitas por toda cidade, entre amigos e seres queridos. O efeito dominó começava aí: um pedaço de papel amarelo fazendo a ponte entre quem precisava ser ajudado e quem poderia ajudar. A fita virou um símbolo quando os adolescentes começaram a pendurar em suas roupas e  bonés, mostrando ao mundo que o suicídio pode ser evitado. Sem negar o problema é possível prevenir.

Em 2003, a OMS instituiu o dia 10 de setembro para ser o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio e o amarelo do Mustang de Mike é a cor escolhida para representar este sentimento. A fita amarela foi escolhida como símbolo do programa que incentiva aqueles que têm pensamentos suicidas a buscar ajuda.

Porque no fim das contas, amarelo não é a cor para parar, mas sim para estarmos atentos,  pois tudo o que se mexe, continua vivo.

Comentar