Paulão

Sempre estudei de manhã. Mas quando chegava sábado e domingo, eu pedia pra ele me acordar às 6h, para juntos irmos à padaria. Aquela mão enorme dada com a minha, pequenina, é das melhores sensações que guardo. Foi ele que inventou meu apelido Sipa. Que me apresentou aos LPs que marcaram a minha vida e a das minhas irmãs: Clara Nunes, Dorival Caymmi, Elis Regina, Caetano, Chico, Belchior, Secos e Molhados, Cartola. E Chopin, Rachmaninoff, Bach.

O prédio onde moramos a vida toda, na República do Peru quase com Tonelero, na Copacabana que eu amo até hoje, foi ele quem construiu e batizou: Arturo Toscanini, para logo vir a orgulhosa explicação de quem era. Para mim, meu pai sempre foi o homem mais inteligente do mundo. Sentava ao piano e tirava músicas e músicas de ouvido. Assobiava melodias inteiras. Sabia matemática. Lia sem parar. Sempre foi de esquerda. Nos ensinava história e política. Fez questão de nos explicar tudo sobre as Diretas e a Ditadura.

Tinha dois pares de sapato. Duas calças, duas bermudas, algumas blusas de botão que usava para trabalhar. Sabonete, só gostava do Palmolive verde, o mais barato. Papel higiênico poderia ser aquele rosa mesmo, por que não, uma diferença de preço. Teve um Fusca, duas Belinas, uma Brasília, uma Kombi. No ano em que estudei no CEAT, em Santa Teresa, me tornei popular por causa dele: passava no ponto da carona e recolhia todo mundo que estivesse ali. Íamos com braços pra fora, um no colo no outro, apinhados, subindo ladeira, mas não sobrava um pra trás. Na vida inteira em que estudei na Edem, era o pai preferido, mesmo depois do cascudo que deu no meu amigo que me infernizava no ônibus escolar: era quem contava sempre as mesmas piadas; era ele quem levava e buscava e dava carona; era ele que sempre topava uma bagunça. 

Eu assistia a Pai Herói e pensava nele. Quase excêntrico, recolhia móveis do lixo da rua porque achava que estavam em bom estado. Minha mãe barrava e ele levava pra fazenda, o lugar que mais ama na vida. Me ensinou a gostar de gente. A olhar para o outro com respeito. A não aceitar injustiças. Este foi o Dia dos Pais mais feliz da minha vida: fomos para uma rua deserta no condomínio onde minha prima mora, levamos duas cadeiras, uma para ele, outra pra mamãe, e nos reunimos ao ar livre, sem aglomeração: as quatro filhas, um genro (sobrevivente!), os três netos, mamãe, minha prima e o marido. Foi o dia dos pais mais feliz das nossas vidas: no início deste confuso 2020, Paulão, o meu herói, ficou doente. Durante dois meses, de hospital não arredamos do lado dele. Recebeu alta no dia 14 de março às pressas porque a Covid-19 já estava por aqui. Duas irmãs se dedicaram dia e noite. Ele não é mais Paulão. Está magro, as orelhas sobressaem, o nariz desponta mais ainda. Mas está vivíssimo da silva. Os olhões azuis brilham. Ele sempre será Paulão.

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