Camiseiro

“Mãe é tudo igual”, dizem. Pai deve ser diferente. Mãe vai virando na gravidez e enquanto espera o bebê ficar pronto entende que o caminho tem curvas e ladeiras, mas a vista de uma aventura sem igual. Pai vira no susto, mas entende rápido que nesse ofício, um par de mãos extras são condição para não conviver com a mulher-zumbi. À medida que o tempo passa o pai deixa de ser membros extras e, ao seu modo, preenche espaços, redefine as lacunas e veste a camisa que nunca mais vai tirar. A questão é que na etiqueta estão erradas a composição das fibras e também as instruções de lavagem.

O tecido é algodão, natural e confortável. A lavagem, “suave”. “Permitido qualquer agente de alvejamento oxidante”, que é pra não deixar de ser claro e autêntico.  A secagem, “em tambor de baixa temperatura” porque pai não precisa se preocupar tanto assim. “Não passar”, porque deve se amarrotar para brincar de panelinha.

Pais são mais inspirados quando não deixam o processo engavetar as outras camisas que tem e a nova identidade não mofa a camisa do skatista, do artista, do palhaço que era antes. Se ele tiver as prateleiras bagunçadas melhor, e que possa vestir todas as camisas, uma por cima da outra em camadas que os filhos vão gostar de tirar, experimentar e usar durante a vida.

O paternalismo roubou muitas camisas dos homens. Eles precisam comprar novas. Melhor, precisam pegar emprestado com os amigos que ainda tem as suas. Mulher conversa, compartilha dores e amores com as amigas e encontra conforto nessas histórias. Mulher se abraça, dá a mão, o ouvido, tira a camisa e troca uma com a outra. Encontro homens trancados na camisa do futuro, que custa muito caro e não veste bem. Nisso fica rasgada a camisa do presente que passa correndo antes que ele perceba que a filha já precisa de sutiã. Também conheço descamisados, em busca da que veste melhor sem enxergar que todas servem e são também confortáveis. As mulheres, mães e filhas precisam e gostam da camisa do pai-herói, mas não sabem dizer por que. Acostumadas com o homem-pai que usa a camisa-armadura, estão prontas para o homem-propósito, o homem-consciência, o homem-sentido? Como seria se eles contassem tudo a elas?

Talvez seja o início de um novo tempo onde a camisa do pai é a sobreposição de todas as que ele puder vestir ao longo da vida. Pode ser feita dos retalhos, ter cores pálidas na velhice para contar as histórias de uma vida colorida. Seja qual for o homem, que seja feliz o dia dos pais, com a melhor camisa que ele consiga vestir.

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