Amamentar: tudo uma questão de referência

Há dois anos, escrevi sobre a amamentação, na experiência que tive com minha primeira filha. O título era: AMAMENTAR, um ato de coragem. Hoje escrevo sobre minha história com meu segundo filho. Todos sabemos que cada filho é um, e nós também somos. Somos muitas mães em diferentes fases da vida, a mãe de primeira viagem é totalmente diferente da de segunda viagem, e assim sucessivamente…

Me emociono toda vez que conto sobre Antonio, porque tudo ainda é muito vivo em mim, escrever ainda me leva a sentir muito fortemente tudo que vivemos, mas escrever é isso, reorganizar em mim, o sentir.

Ele nasceu com 29 semanas, minha gravidez era mesmo de risco, estava de repouso quando ele resolveu mesmo vir à este mundo, entrei em trabalho de parto. Para resumir tudo, eu que planejava um parto domiciliar, me encontrava numa sala cirúrgica, sem saber se ele nasceria bem. O corte da cesária está aqui para fazer história. Ele chegou, pequenino, mas com muita força para viver!

Nossa relação começou naquela caixa plástica, dentro da UTI neonatal, sem que eu pudesse abraçá-lo ou colocá-lo diretamente no meu peito como fiz com minha Maria.  As emoções, os hormônios e o medo da vida, tomaram conta do meu corpo. Novos desafios, uma nova mãe, vivendo a segunda maternidade de uma forma muito mais abrupta do que sempre imaginara. E então, entro no tema da amamentação. Se no início com Maria tive que lutar contra o sistema para não entrar com suplemento no seu terceiro dia de vida, desencorajada sobre o meu poder de amamentar, dessa vez vivi exatamente o contrário. 

Desde o primeiro dia ouvia de todos os especialistas: O seu leite é fundamental! Para um prematuro não existe nada mais importante que o leite materno. Assim começou minha luta, desta vez uma luta com meu corpo, que sentia-se atropelado. Todos os medos vieram! Será que meu leite vai descer? Será que terei o suficiente para ele? E se eu não conseguir? Meu filho precisa do meu leite! 

Ele precisa de mim! Esse foi um mantra, para encontrar forças e começar a
estimular meu corpo, quase que numa obsessão, como se aquelas máquinas
que puxam leite pudessem, e podiam, salvar meu menino guerreiro.
Se com Maria o encorajamento foi meu, com Antonio o encorajamento veio de fora, todos torcendo e dizendo que o leite viria.

Assim segui, numa tensão, um misto de emoções, na luta e desta vez, sem o maior estímulo que uma mama pode ter, a boca de seu próprio filho. As enfermeiras sugeriam, tire leite com a a bomba, olhando para uma imagem do seu filho, para que a ocitocina possa ter algum estímulo! Que loucura, amamentar uma máquina, tentando ao máximo trazer alento para o coração e hormônios com a foto do Antônio. E o cheiro dele? E a pele dele em contato com a minha? Onde encontrar???

Agora era tudo cronometrado, hora de máquina, hora de entregar o leite no
hospital, hora de colocar na geladeira, hora de… Foram muitas horas, muitos dias, com leite, sem leite, cada gota contava, e a pressão de dentro e de fora tomavam conta do meu ser materno, porque de fato, a única coisa que eu podia dar para meu menino naquele momento era minha presença, meu olhar sobre ele, naquela incubadora e MEU LEITE! 

Meu marido sempre na torcida, dizendo e me estimulando, cada vez que as
gotas saíam. Em cada frustração minha, o reconhecimento dele e a certeza de que tudo daria certo. Hoje penso, que ironia do destino, se com a Maria a pressão que sofri foi de largar mão do meu leite que não a engordava, com Antonio vivi exatamente o contrário, seu leite é o melhor remédio que ele pode receber.

E assim seguimos nesta história de muita superação, um menino que veio para nos transformar no melhor de nós, um filho que foi se constituindo como nosso, com o tempo, pois a responsabilidade de cuidado dele demorou muito para nos ser entregue. Vencemos juntos.

Sim, ele, super prematuro de 29 semanas aprendeu a mamar no peito! Muitos prematuros têm dificuldade, hoje penso que a dificuldade não deve ser deles e sim das mães, que vivem todo este processo, e chega um momento que pegar ou não o peito é quase um detalhe, estar vivo e “pronto” para ser nosso e poder ir para casa é a maior conquista, o resto, de fato, é o de menos.

Essa história tem muitos capítulos, poderia talvez, escrever um livro, quem
sabe…

Antonio mamou até os 6 meses, até ser pego pelo vírus do H1N1, e depois de
mais de um mês fazendo fisio respiratória e respirando praticamente só pela boca, rejeitou meu peito. Tentamos, mas confesso que até hoje, apesar do meu esforço e da clareza que tenho da importância do amamentar, tudo foi muito diferente da experiência anterior, era importante, mas mais importante de tudo era ter meu filho, são e salvo, vivo no meu colo.

Portanto, afirmo, tudo na vida é uma questão de referência, se com Maria amamentar era quase uma questão de vida ou morte para mim, no caso do Antonio vivi o tema Vida ou morte no sentido mais literal da palavra, e sim, amamentar foi importante, mas o fato dele respirar e estar saudável foi e ainda é a maior vitória, que celebro e agradeço todos os dias!

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