A casa que voa

Três famílias vizinhas partiram este mês. A notícia encolheu o coração de quem ficou.  Foi gente que viveu em Dubai quase uma década, e agora arruma as malas com o dinheiro da rescisão do contrato no bolso e a angústia do expatriado que volta para o país que não chama de casa. Com a pandemia perderam o emprego, esgotaram a paciência e arranharam a identidade.

Rascunhei cartas de despedida e vi o susto nos olhos deles por trás da máscara anti Covid. Não entreguei as cartas. Eles também não se despediram. Nas garagens onde antes estavam os patinetes das crianças, estão agora as tabuletas com a fotografia de agentes imobiliários onde lê-se: “Vende-se”. Vi tudo isso enquanto andava de bicicleta às cinco e meia da manhã, suando pelas narinas e pensando quando chega a nossa vez. Calculei o tempo que leva para esquecer o que agora está no passado, vivido com pessoas que talvez nunca voltemos a encontrar. O relógio marcou o fim do trajeto e agora além do suor eu levei um tapa na cara.

Sete anos desde que deixamos o Rio de Janeiro. Seis de Oriente Médio e um de Indonésia trouxeram gente querida. Em dias otimistas planejo as próximas férias em países onde as reencontre. Nos realistas congelo as fisionomias que na minha memória nunca envelhecerão. Nesse bafafá emocional sou minha própria psicanalista a matutar com a razão alguma arte possível para continuar a evoluir aqui.

Dubai é show de Truman, é realidade virtual e aumentada. Todo mundo está feliz. Na real, uma metade vem para não pagar impostos e outra para prover aos filhos que mal conhecem. Trabalhador de obra e jardineiro vem para labutar no calor lancinante e ganha aqui o que jamais no Paquistão. Manicure e faxineira deixa os filhos com as avós nas Filipinas e no Sri Lanka pra reencontrar uma vez por ano quando sai de férias.

Eu? Eu vim para ser mãe tempo integral e andar na rua sem medo de assalto e bala perdida. Vim pra plantar um montão de árvores, inventar feriados e festas à fantasia. Eu vim porque Dubai está no meio desse planeta e é meio do caminho pra ir embora outra vez. Todo mundo está feliz?

Conto com o dia em que outros vizinhos passarão pela nossa porta e lá verão a placa de “Aluga-se” com a foto do corretor de imóveis. Quem vier morar aqui, vai encontrar as seis árvores que plantei e pedaços da gente espalhados por todos os lados. Enquanto isso, estaremos andando de patinete, de bicicleta e de metrô – de casaco. Porque a nossa casa não está no passaporte. Não é lá nem aqui. Nossa casa tem asas e está pronta para voar.

Comentários

    • Que bom que você voltou a escrever.Eu estava com saudade dos seus textos, sempre emocionantes.
      Parabéns pelo lindo texto e pela volta aos mães em rede.Beijos.

  1. Muito, muito bom o texto como sempre. Sentia falta deles !
    Adorei a metáfora de que ” a nossa casa não está no passaporte “. Genial !

  2. Adorei! Aliás adoro sempre ouvi-la e lê-la!
    Sou sua fã! Tão verdade o que está no seu texto. Esses dias são duros. Mas a gente vai dar a volta!! Bjs gdes

  3. Nômades modernos vcs. Alias, diplomatas e seus familiares passam por essa mesma efemeridade. No final sobrevivem, tendo histórias incríveis pra serem contadas. Parabéns pelo texto.

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