Volta às aulas na Espanha

O blog Mães em Rede gostaria de contribuir para o debate sobre a volta às aulas presenciais, ampliando o tema, contando como outros países estão lidando com um assunto tão complicado, que afeta a tanta gente.

Vivo em Zaragoza, na Espanha, atualmente a cidade com maior número de casos de Covid do país. De números absolutos, não relativos. Zaragoza tem 700 mil habitantes e ontem, dia 30 de julho, foram notificados 142 novos positivos. Nós não estamos mais no chamado “novo normal” e sim retrocedemos a fase 2 do desconfinamento. Isto quer dizer, que estamos de volta com as restrições. Que são basicamente o fechamento de parques infantis e ludotecas. Redução ao 50% da quantidade de pessoas nos ônibus municipais e lojas. 30% nos bares e piscinas públicas. Cancelamento de todas as colônias de férias e acampamentos de verão. Proibidas todas as atividades esportivas coletivas, como jogar futebol. E, principalmente, fechamento completo de todas as discotecas e proibição a beber na rua. Além da obrigação do uso de máscaras em todos os lugares, mesmo que se possa manter a distância social.

Mesmo diante de um cenário tão preocupante, a volta às aulas continua marcada para o dia sete de setembro. E eu, mãe de um menino que vai cursar a 5ª série do ensino fundamental e de uma menina que cursará a 3ª, torço para que seja assim.  Diante de cenário atual, não duvidaria em mandar meus filhos à escola. Louca irresponsável? Quero pensar que não. Mas, vamos aos fatos.

142 novos positivos são muitos, mas já são bem menos que os 300 de uma semana atrás. Isto significa_ esperemos_ que as medidas tomadas para conter este surto na cidade estejam dando resultado. O que dá esperanças de que as restrições sejam levantadas nas próximas semanas. A origem deste surto está no trabalho agrícola. Estamos em plena época da colheita da fruta em Aragón, que é responsável por grande parte das cerejas, pêssegos, maças e peras que vão alimentar a meia Europa. Mas esta colheita precisa de mãos para o trabalho, que na sua maioria realizada por trabalhadores imigrantes, muitos sem papéis, que vivem em precárias condições e a última coisa que querem é ir ao médica e serem denunciados e deportados. Os contágios começaram aí e se espalharam pela cidade, em especial, nos bairros de população mais pobre, onde vivem muitos em apartamentos pequenos.

O governo de Aragón está fazendo um enorme esforço para conter o surto. Não apenas com as medidas citadas, mas também em testes para a população e isolamento dos casos. Como disse, ontem, foram 142 novos positivos, mas foram realizados mais de 3 mil testes na cidade. Para cada positivo se busca seus contatos para isolar. Na média, para cada positivo, se está isolando a seis pessoas. Se a pessoa não tem onde ser isolada, se disponibilizou um local público para positivos assintomáticos.

Este também é um fator importante: os assintomáticos. Dos 142 novos positivos, 60% são assintomáticos. Isto quer dizer que, embora os números sejam altos, não estão representando uma demanda maior de hospitalizações. Os hospitais da cidade tem mais pacientes que há um mês, sem dúvida, mas ainda tem mais de um 50% de camas livres.

Estes são os fatos que nos dão um pouco de otimismo. Mas é claro que estamos preocupados. Ontem a ministra da Educação espanhola deu uma entrevista coletiva em que diz que a volta às aulas presenciais é irrenunciável, mas se tiver que escolher quem volta, seriam os menores, da escola primária. Os universitários poderiam sim continuar com as classes on line. Os da escola secundária poderiam fazer um sistema misto.

Aqui, cada Autonomia (o equivalente aos nossos estados) é responsável em apresentar ao ministério um plano para esta volta tão esperada. Até agora, o governo aragonês propôs: máscaras em sala de aula para todos (menos para os do Jardim), cancelamento de todas as classes extra curricular (o que inclui os esportes, o xadrez, a robótica, só para ficar no que fazem meus filhos), que a hora de entrada seja diferente para cada série para que não haja aglomerações de pais na entrada da escola, recreios separados, usar todos os espaços disponíveis da escola para classes ao ar livre (quero ver em dezembro a 0 graus…). Álcool gel e medir a temperatura das crianças todos os dias. A proposta inicial de que só estivessem 15 crianças por classe, não é possível, porque não há dinheiro para contratar a novos professores. Continuarão com o máximo de 25 alunos por classe.

Pode ser que nada disto dê certo e que em poucas semanas estejamos em casa outra vez. Porque basta com que um professor, de inglês por exemplo, que dê classes para a 4ª e a 5ª séries, teste positivo, para que estas duas séries inteiras vaiam para casa. Com elas, seus irmãos em outras series e seus pais. Aí será testar todo mundo, isolar os positivos e que os outros voltem para a escola. Este é o risco. Por isto, para voltar de fato, a quantidade de vírus circulando tem que ser baixa.

Então, temos que encarar de frente a realidade: todos queremos voltar. As crianças necessitam a escola. Necessitam suas relações. São muitos meses de isolamento, com muitas horas na frente do videogame, da tablete, saindo pouco, vendo a amigos contados nos dedos, porque evitamos ao máximo o contato social. E isto que nós somos privilegiados. Porque há um grande número de crianças que depende da escola para comer. Milhares não tem internet em casa para acompanhar as classes on line. Muitas têm necessidades especiais e precisam do apoio educativo para continuar avançando. Sem falar de todas as famílias cujos pais têm que voltar aos seus trabalhos de forma presencial e simplesmente não tem onde deixar os filhos, se a escola não estiver aberta. Aqui não existe babá. Ou melhor, existe. Para famílias realmente ricas, porque uma pessoa de classe média teria que entregar quase 100% do seu salário para pagar uma cuidadora.

Com tudo isto, desejo a volta às aulas. Sabendo que não será como todos os setembros. A alegria do reencontro. Todos se abraçando. Decidindo que atividades farão depois de classe. Até a vacina, nada disto será possível. Mas espero que algo exista. Que não continuemos com o mesmo esquema do fim do último curso escolar, recebendo deveres e nada mais. Que todos tenhamos aprendido algo e podamos lidar melhor com o que nos espera. Este será um longo outono. e um inverno que é melhor nem pensar.

Só para finalizar, a educação na Espanha se divide basicamente em escola pública total e escola privada subvencionada, quer dizer, que também vive do dinheiro público e os pais nada pagam. Estas são todas escolas católicas. As escolas totalmente privadas são poucas. Devem representar um 10% do total de escolas no país.

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