Retorno à escola, a mais nova banalização do mal

Há quatro meses vinha tentando me controlar e me abster da discussão pública sobre a educação e o papel da escola durante a pandemia. Com quatro experiências domésticas distintas sobre o tema – filha no 5o ano do fundamental, filho na 3a série do ensino médio, filho no mestrado em instituição pública, eu no doutorado em instituição privada – não me faltaram fatos, dados e opiniões a emitir e compartilhar. Mas me calei. A não ser por um comentário aqui e ali com os mais próximos, optei por não alimentar a fogueira do debate.

No entanto o vídeo divulgado pelo Sindicato dos estabelecimentos de ensino do Rio de Janeiro (Sinepe) me fez abrir a torneira. Além de abusar dos lugares comuns propagados pelos negacionistas aos riscos do novo coronavírus, a peça publicitária afirma com uma estética no mínimo questionável que o vírus não “se irá de todo, mas que aprendemos a lidar com ele”. Acusa o isolamento social de não ser ciência e sim ignorância por impedir as crianças de conviverem no coletivo, de subtrair a vida e mexer com o emocional de todos. Critica a responsabilidade social, a reduzindo e chamando de medo e alegando que já há modos de “tratar a doença”. 

A desonestidade intelectual é grande e não resiste a uma busca simples no Google. Os efeitos de um retorno hoje dos alunos às aulas deverá colocar em risco 9,3 milhões de idosos e adultos (4,4% da população do país) com problemas de saúde e comorbidades, de acordo com pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Somente no Rio o número de óbitos potenciais com esse retorno é de 3 mil, ainda segundo a Fiocruz. A conta real que está na mesa é a que sabemos fazer: voltar às aulas significa poder voltar a cobrar mensalidades sem desconto.

Nesses quatro meses eu vi e vivi de um tudo no território da educação. Vi professores negando a realidade e não querendo adiar aulas presenciais quando o vírus já nos cercava. Vi instituições perdidas sem saber como seguir com as aulas online para as quais nunca tinham se preparado. Vi pais cobrando e exigindo a organização das escolas e universidades no dia 2 do confinamento, ameaçando tirar os filhos da escola, reclamando do despreparo na nova realidade que se colocava para todos. Vi professores rejeitando o novo modelo até ontem. Vi pais enlouquecendo sem dar conta dos próprios filhos em ensino à distância. 

Vi professores descobrindo novas formas de se conectar com os alunos. Vi alunos descobrindo novos caminhos, percorrendo trilhas que não teriam como fazer se não fosse pelo digital. Vi pais e filhos podendo aprender juntos outras novidades. Vi professores conseguindo dar aula justamente porque agora não são interrompidos o tempo todo. Vi alunos assistindo aula na cama pelo celular. Vi alunos sem a menor condição de assistir aulas online porque suas casas ou não têm acesso à banda larga ou a mesma não é suficiente para a demanda de todos. Ou porque simplesmente não há sequer computadores para isso. Vi professores exagerando na cobrança em aula e em avaliações, com volumes abissais de conteúdo, apenas para justificar o ambiente virtual.

Vi alunos, pais e professores enlouquecendo e precisando de ajuda psicológica. 

Sim, estamos todos exaustos emocionalmente e não aguentamos mais. E sabemos que muitas escolas também estão estranguladas financeiramente porque, além da inadimplência, a evasão escolar, especialmente na educação infantil, abalroou muitos empreendimentos já em dificuldades. Mas nada, nada justifica um retorno neste momento.

A escola é uma construção coletiva. E social. A educação se dá para além do conteúdo apresentado e cobrado em exames e provas. Ela acontece nas interações, nos contatos e na inclusão. Em ambientes de confiança e segurança. E nossos ambientes de educação, tanto o público como o privado, são absolutamente distintos, diversos e desiguais. Não há como pensar em retorno sem encontrar soluções diversas, que minimizem tantas diferenças. Não há como voltarmos com a educação sem um repactuamento de valores e enquanto estivermos com uma média diária de óbitos por Covid-19 na casa de 1 mil pessoas. Nada disso é normal nem novo. Só estamos reescrevendo a banalização do mal. 

Comentários

  1. Raquel, parabéns texto muito bem escrito, apoio totalmente! Não podemos deixar nossas crianças e nós, corrermos riscos! Estamos passando por momentos de muito aprendizado, o mais importante, é poder ensinar aos nossos filhos o respeito a vida e ao outro. Abs

  2. Parabéns pelo texto. Reflete como é importante a participação dos pais, da família em geral na educação das crianças e jovens e como a aprendizagem não se restringe à sala de aula. Não há como saber que teremos muitas mortes e chamar isso de educação. No mínimo estaremos ensinando o desprezo pela vida alheia.

  3. O texto é realmente muito bom, só não podemos esquecer também das famílias que não tem rede de apoio e em que ambos os pais estão na linha de frente e /ou retornando ao trabalho pq algumas atividades já estão voltando a funcionar. Nesse caso, a escola tb tem um papel de apoio fundamental. Eu também não acho q seja o momento de voltarmos e não vou enviar minha filha caso as escolas reabram, mas a discussão é muito mais complexa e deve envolver toda a sociedade.

    • Sim, Carla, concordo e é por isso que acho que as soluções devem ser diversas e consideradas com todas as responsabilidades envolvidas. Obrigada por compartilhar sua visão conosco!!

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