O branco no preto da quarentener

Sempre fui velha.

Desde criança conjugava bem o verbo ser com adjetivos como responsável, madura, séria. Brincava e me divertia, claro. Mas estava sempre pensando em ser adulta, em ler e estudar para me preparar, fazendo planos e traçando metas. Era como a formiga: sempre trabalhando a fim de estar pronta para o porvir. E o futuro foi chegando do jeito que planejei. Ao menos até os 40.

A entrada nos “enta” chacoalhou minha vida. Foi-se o trabalho de quase 20 anos, veio o filho querido aos 44 do segundo tempo. E eis que a década das mudanças está prestes a se fechar em meio a maior de todas elas: me despeço dos 40 como quarentener. Como imaginar uma coisa destas lá no começo? O que pensar para frente, com o país andando para trás a passos largos?

Não sei. Só sei que decidi deixar a tal “velhice” aparecer de cara, contrastando com toda a jovialidade que ganhei com os anos. Sim, mochilei pelo mundo quase todo, embrenhei-me em trilhas da caatinga piauiense às cidades enterradas no meio da floresta da Guatemala, andei de escafandro no meio do mar na Ilha Maurício, onde também voei pendurada numa espécie de para-quedas, presa a uma lancha em movimento.

Hoje guardada em casa, sinto-me mais livre para brincar de pique-parede com meu moleque e meu marido no terraço. E mais forte para segurar a tentação de passar henna nos quatro dedos de fios brancos da mecha que tenho desde antes dos 30. A ideia é chegar aos 50 sem o único artifício de que me vali para tentar disfarçar a passagem do tempo por mim. Nunca senti necessidade de botox e afins, e sempre tive peito para chegar até aqui sem crises. Com cinco quilos a menos seria melhor, claro. Mas desde os 15 já era assim.

Vida que segue. E eu ainda entrando de cabeça, só que agora com os tons grisalhos à mostra. Vivida e exposta.

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