Normal

Ana Bemfica, em Madri, tem um susto. Filho com febrícola. Mas isto agora no novo “normal, já nao é normal. Uma pequena grande história do cotidiano na pandemia.

Normal

Era para ser mais um dia normal da “nova normalidade”: acordar cedo, mas sem despertador… um dos luxos que a Covid-19 trouxe para nossa rotina .

7h30: Pipi pipi- pipi pipi- pipi pipi. O som do termômetro nos despertou, anunciando 37,5 graus de temperatura de meu filho nada pequeno, 17 anos. Poderia ser só uma gripe normal de quem vem da rua do calor de 38 graus do verão madrilenho para o frescor do ar-condicionado que garante nosso bem-estar dentro de casa . Mas, na “nova normalidade”, não é bem assim.

É neste exato momento que na cabeça de uma mãe se desenha todo um cenário perfeito para a preocupação, e o famoso exército de  minhocas oportunistas que vivem bem ali,  debaixo da superficie do nosso cérebro, vem inteiro à tona.  

O cenário dessa vez era completo, mas tudo dentro da normalidade:

  • No último fim de semana, voltamos de duas semanas em Barcelona, um dos principais focos de reinfecção na Espanha.  Meu filho já  tinha se programado para fazer, lá, um  intensivo de  tênis nas férias da escola, e  com a pandemia,  decidimos acompanhá-lo. Podíamos trabalhar de Barcelona, já que a quarentena trouxe outro luxo, o trabalho remoto. Quando chegamos lá, não tinha rebrote. Durante essas duas semanas, mesmo respeitando todos os cuidados,  ele esteve exposto. Pegava  metrô para chegar ao centro esportivo, dividiu quadras com treinadores e jogadores de outros lugares do mundo, treinou na academia do clube .  Tudo dentro do protocolo . Depois  de 6 horas de treino, ele não  queria fazer nada além de comer e descansar.
  • Como família, saímos pouco . Foram duas semanas bem intensas de trabalho. Passeamos  quase nada, comemos em casa e, quando saímos, tentamos estar sempre ao ar livre.
  • Na volta, claro que um jovem de 17 anos quer ver seus amigos. E assim foi. Quer ver a namorada, e assim foi. Outra vez,  dentro do protocolo.
  • E eu  também, não só quis , mas  desejei  profundamente  estar com mais duas amigas e apoiar uma terceira  num momento delicado de saúde.

Afinal estamos vivendo a ´nova normalidade ´, com restrições,  mas não impedidos de incluir isso tudo.

Aí apita o alarme da febre. E com ele vem aquele monte de sentimentos horríveis : preocupação com o filho —  e com todos aqueles que tivemos contato e a culpa de ter tentado viver a ´nova normalidade ´.   Irmã da preocupação é  a projeção , que vem de mãos dadas com ela — quem foi o infeliz que inventou  essa mentira que chamam de  ´nova normalidade´? – pensei

7h35: E o Google já tinha uma lista de ´trocentas´ clínicas em Madrid que poderiam  fazer o teste rápido de Covid  para baixar não a febre, mas a ansiedade de todos nós . Só que elas só abriam  às 9h.  
‘ Mientras ´a gente entra na onda da ´nova normalidade ´e finge que está tudo bem. Prepara o café-da-manhã , arruma a casa, tira a louça da máquina , varre o chão. Afinal, vida que segue… só que não. As minhocas da cabeça já viraram jibóias,  e o coração tá lá miudinho,  batendo quase na garganta.  

9h:…¨Alô, eu queria fazer um teste rápido de Covid no meu filho, tem como marcar para hoje? 9:30h pode ser?

9h40: Estávamos no carro voltando para casa … 10:30h teríamos acesso ao resultado . Pausa para mais um  ¨mientras¨ numa manhã da nova normalidade . Respira.
10h25, na tentativa o resultado já estava lá e era um negativo.

Agora pense em Hércules tirando o mundo de seus ombros…

11h: Eu tinha uma revisão no dentista. Aliviada , feliz  e contente chego lá e me deparo com uma equipe de dentistas de Marte: todos vestidos de astronauta , cada um com duas máscaras, e um visor e seu macacão branco com capuz posto. Eu? De máscara, sentada numa cadeira do castigo,  a quilômetros de distância de qualquer ser. Condição protocolar até que estivesse preparada para o contato. Mediram minha temperatura, Coloquei meias descartáveis por cima dos sapatos,  álcool gel,  luvas, e uma touca na cabeça. Juro que me deu medo de tirar a máscara na hora de sentar na cadeira do dentista. Bem, quem que nunca teve medo de dentista , diante  daqueles dois seres que pareciam fazer um experimento radioativo na minha boca… pronto: voltaram as anacondas mentais novamente . Respira, respira fundo.
Pior de tudo é aquele monitor que fica na altura exata dos olhos passando imagens idílicas de  praias paradisíacas e campos cheios de paz e harmonia, só  lembrando da ¨nova normalidade modo on ¨.

`Nova normalidade ´… tá bom… Nem aqui nem na China. Não tem nada  normal. NADA . Se ela é uma nova versão do Keep Calm And Carry on, meu sangue italiano prefere assumir que não.

O que vai pesar na balança e trazer equilíbrio desses tempos  são os aprendizados do novo todos os dias . E nossa consciência. Na minha, cada vez mais vem a certeza de que toda e qualquer decisão impacta em muitos . O #tamojunto é a palavra de ordem do que prefiro chamar de nova realidade. Porque de normal ela não tem nada .

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