Última semana

Estamos na nossa última semana de estado de emergência. A partir do dia 21 de junho, se tudo continua como está, começaremos a tal “nova normalidade”. Este dia também marca a chegada do verão, o fim do ano escolar e o começo das férias das crianças. Meu sentimento é que o otimismo e a alegria com que começamos a saída do confinamento se vão esvaindo na medida que a realidade do novo “normal” se vai impondo.  Continuamos vivendo a montanha russa de emoções: felizes pelo fim da quarentena, mas eternamente preocupados com uma segunda onda, com receios sobre o que se pode fazer, mesmo que agora nos permita a lei.

O medo, o receio, a precaução, o cuidado, ou como queiram chamar, são a marca desta etapa. Cada pessoa ou família sai do confinamento a uma velocidade distinta. Tem muita gente que ainda está na fase 1. Tem outros mais atrevidos, que já vão pelo normal total. Vamos nos relacionando com quem sai na velocidade parecida com a nossa, mesmo que isto custe a tristeza das crianças. Carol queria muito brincar com algumas das suas melhores amigas, mas os pais das meninas vão em um ritmo mais lento na tal “desescalada” e ainda tem medo de encontrar, mesmo que os encontros estejam permitidos na fase em que estamos. Carol então se conforma em brincar com outra amiga, cujos pais vão no mesmo ritmo que nós. Para os pais mais conservadores, sinto como se fossemos uns kamikazes. Temo que eles impeçam o encontro das amigas com medo não da Carol, mas de nós como pais. Do nosso atrevimento.  

Mas o que exatamente fizemos nesta saída do confinamento? Bem, semana passada, por exemplo, fomos ao centro da cidade pela primeira vez em três meses e tomamos um sorvete. Depois, entramos em uma livraria, cada um escolheu um livro novo e voltamos para casa. Também, isto seja o mais inseguro nos dias atuais, fomos a um bar com outros pais da escola, não da mesma classe, mas o grupo da Associação de Pais. Nos sentamos fora, ao ar livre, tomos uma cerveja, enquanto as crianças brincavam pelo parque. Ao mesmo tempo em que me senti bem por compartir mesa, risadas e histórias da quarentena, sempre fica a pergunta: fiz bem? Devo fazer isto? Continuamos todos sem sintomas? Uma luta interna entre a voz do medo e outra que diz: não se pode viver assim. Temos que voltar.

Aqui em Aragón vamos por um bom caminho. Há mais de uma semana não se comunicam falecimentos por Covid e ontem foram registrados apenas três novos casos. Mas é isto. Continuam existindo casos, mesmo depois de 60 dias sem sair de casa. E vão continuar existindo até a vacina e teremos que aprender a conviver com o vírus. Também conviver com o medo, o cuidado, a precaução ou como queiramos chamar. Conviver com a distância, a falta de confiança e uma certa solidão.

Com a chegada das férias escolares, quem pode levará os filhos para fora da cidade. Quem tem casa nas cidades pequenas, os “pueblos”, como se diz aqui na Espanha, irá para lá. Nós que ficaremos na capital, tentaremos continuar a vida parecida com a que estamos. Passeios de bicicleta, parque, algum saída da cidade de fim de semana. Mas sempre para o interior. Nunca para Barcelona, por exemplo. Nenhuma vontade de ir a uma cidade com mais gente, turistas, que não sabemos de onde vêm. Continuaremos a conviver com os mesmos que convivemos, porque a saída do confinamento parece que separa mais que une. Ou melhor, nos une à família e amigos mais próximos e separa aos que não compartilham a mesma velocidade. Será um longo e estranho verão.

Por mais que tento repetir a frase do “é preciso viver o hoje”, sempre olhamos o outono com receio da segunda onda. Em princípio, a escola voltará dia sete de setembro, nossa independência, mas será? Dependerá dos números de casos, como sempre. Minha fé e esperança é que, mesmo existindo novos casos, estes possam ser controlados à tempo e que não se feche tudo outra vez de forma tão drástica e traumática para todos. Que as crianças possam se reencontrar com seus amigos e professores. Que podamos nos reincorporar à sociedade como cidadãos plenos. Que podamos nos abraçar sem medo. Mas isto talvez só com a vacina.

2020 ficará para a história como o ano em que os irresponsáveis eram os que abraçavam. Mas vamos sobreviver à ele. E contar esta história no futuro.   

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