Ossos quebrados

Esta semana, outra de tanta tristeza no Brasil, lembrei de um dos maiores sustos da minha vida. Tão grande que às vezes ainda sonho com ele. Quem conhece minha mãe sabe que, na sua casa, trabalha uma senhora há muitos anos. Uma mulher que, além de cuidar da casa e cozinhar, lhe faz companhia. Esta trabalhadora é mae de um filho único.

Esta história aconteceu há alguns anos atrás, durante umas férias em Natal, quando Hugo tinha dois e Carol era recém nascida. Enquanto nos preparávamos para ir à praia, minha irmã ficou com pena que nós fôssemos nos divertir e o menino, filho da trabalhadora, então com sete anos, fosse ficar em casa vendo tv. E o convidou para vir conosco.

Não gostei da ideia. Levar filho dos outros à praia é uma responsabilidade grande e eu já ia cuidar de um menino de dois anos. Carol, muito bebê, ficaria em casa com a avó. Minha irmã disse que sim, que seria bom para ele brincar com meu sobrinho, que então tinha 12 anos. Descemos. Um pouco depois, minha irmã lembrou que tinha que comprar não quê para o almoço. De repente, me vi cuidando sozinha de um de 12, um de sete e outro de dois anos. Estava na areia com o Hugo, o de 12 e o de sete brincavam na beira da água. Aí o de 12 entrou um pouco mais, o de sete seguiu, uma onda veio mais forte e o arrastou. Meu sobrinho gritou, larguei o Hugo sozinho na areia, entrei como uma louca no mar e o alcancei onde já não dava pé. O mantive com a cabeça fora da água, enquanto tentava voltar, mas não sou salva-vidas. Não sei nadar arrastando a uma criança, que de tão assustada, se agarrava no meu pescoço, sem me deixar respirar. E vivi os segundos, que pareceram horas, mais angustiosos da minha vida.

Meu sobrinho continuou pedindo socorro e dois homens entraram e nos ajudaram a sair da água. Na areia, encontrei o Hugo chorando no colo de uma desconhecida, que viu a cena e cuidou do meu filho, enquanto estava na água. Comprei picolé para todo mundo e nos tranquilizamos. Tudo não deve ter durado mais de 10 minutos, mas o suficiente para ficarem marcados na minha memória.  A quase tragédia.

Desta história, apenas reforcei o que já sabia: prometi nunca mais levar o filho de ninguém à praia. Porque se está comigo, está comigo. É minha responsabilidade. Cuido como se fosse meu filho. Ou como gostaria que cuidassem dos meus. Mar, piscina são lugares em que o cuidado têm que ser redobrados. Principalmente com criança pequena, que não para quieta.

Fazia tempo que não lembrava desta história. Ainda bem. Mas ela voltou com força com a morte do menino Miguel no Recife. Uma história que tem tanta coisa errada. O racismo estrutural, a exploração da mão de obra doméstica em plena pandemia e um longo etc. Mas só queria falar deste sentimento de maternidade que nos une. Não somente à aquelas que somos mães, porque tenho certeza que, um sem fim de mulheres compartem este sentimento de proteção à infância, independente de terem parido ou não. Foi isto que mais me chocou: onde está a empatia pela criança? Onde está o cuidado com o outro? Uma desconhecida cuidou do meu filho na areia, enquanto ajudava a outra criança. Isto é o normal. É o que qualquer um faria, ou não?

 Cuidar do outro é o que nos faz humanos. Não cuidar significa ausência total de humanidade. Não sou eu que digo. Foi a grande antropóloga Margareth Mead quem disse o que marca o princípio da civilização humana foi quando se descobriram ossos quebrados, curados e cicatrizados de homens pré-históricos. Para que uma pessoa pudesse se recuperar desta fratura, foi preciso que outra, ou outras pessoas, lhe cuidassem. Que lhe trouxessem comida, que lhe ajudassem a levantar. Este cuidar marca o início histórico da civilização. Nenhum animal sobrevive na natureza, esperando que um osso se cure.

Já descumpri minha promessa muitas vezes. Já voltei a levar o menino na praia. Ele sempre gosta, se diverte brincando com meus filhos. Tomam sorvete e comem queijo coalho. Mas sempre que levo, vamos para a zona de arrecifes, onde se formam as piscinas naturais e não tem onda. Fico encima o tempo todo, sou a chata que grita: sai do fundo! Quando a água chega no joelho. Hoje, com 14 anos, deve me achar uma mala pesada. Mas enfim, uma longa e feliz vida lhe espera.

Então, cuidem-se!

Comentários

  1. Essa história, Rosane, regata o que há de humano em nós, nesses dias em que a humanidade, esse traço que nos diferencia, parece ter desaparecido. Obrigada. Bjos da Graça Salgado.

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