Fim

Primeiro veio a incredulidade. A arrogância de quem acha que aqui não passam este tipo de coisas. Depois veio o pânico. A corrida aos supermercados, a ansiedade da incerteza e o medo. Depois veio a ordem de não sair. “Quédate en casa”. Fechamos a porta e abrimos a janela.

Nos dias mais escuros, a pista de patinação no gelo de Madri, a mesma onde as crianças brincam e atletas treinam, se transformou em um necrotério improvisado para abrigar os corpos, que o necrotério oficial já não dava conta de armazenar. Não foi suficiente, tiveram que usar outra pista de gelo.

Nos dias mais escuros, a prefeitura de Barcelona teve que usar um estacionamento para armazenar caixões.

Nos dias mais escuros, um amigo avisa que perdeu a mãe. Outra amiga comunica que perdeu o marido. A mãe foi por Covid. O marido não. Mas nenhum dos dois pode receber um abraço.

Nos dias mais escuros, todos os planos foram cancelados e pensei muito em Manuel Bandeira e “na vida que poderia ter sido e que não foi”.

Nos dias mais escuros, milhares de trabalhos fecharam suas portas. Inclusive o meu.

Nos dias mais escuros, passamos a ter medo dos vizinhos.

Nos dias mais escuros, fez frio e choveu. Desci para jogar o lixo fora e a rua era silêncio. Não havia ninguém. Lágrimas de desolação desceram pela minha cara. Enxuguei as lágrimas para entrar em casa e meus filhos brincavam e riam na sala. Felizes. A vida estava dentro.

Nos dias mais escuros, criamos as noites de jogos. Apagamos as notícias, colocamos música e brincamos de mímica, dominó, ludo, doble, cartas e, quando cansamos destes, compramos mais por Amazon.

Nos dias mais escuros, o Cirque du Soleil nos fez companhia. Todas as sexta-feiras tem espetáculo liberado. Também descobri Monica Salmaso e as parecerias do Os de Casa. A querida Jacque inventou Artistas de Projeção da Minha Janela. A todos vocês, obrigada.

Nos dias mais escuros, fiz chamadas semanais com a De e o Alex, dois amados que o Recife me deu. Todo mundo sabe que o que o Recife une, nada mais pode separar. Mesmo que a união pernambucana seja de uma carioca, uma paulista e um catarinense.

Nos dias mais escuros, reencontramos as Mães em Rede dispersas pelo mundo. E esta força feminina é o ombro onde muitas vezes me espelho e me apoio. A vocês, também obrigada.

Nos dias mais escuros, fiz yoga, pão, bolo e biscoito. E fui uma das responsáveis pelo desabastecimento de farinha e fermento nos supermercados.

Nos dias mais escuros, o whatsapp não parou. Fonte de dispersão de energia, mas também de união entre tanta gente. Seja da escola ou da família.

Nos dias mais escuros, teve aniversário de oito anos aqui em casa. Um feliz aniversário, cheio de gente pelas telas espalhadas pelo mundo. Mas mesmo feliz, a menina disse que este não valeu. Que no próximo ano a celebração tem que ser dobrada.

Nos dias mais escuros, aprendemos a usar máscara, a fazer fila do lado de fora do supermercado, a esperar que uma pessoa saia da padaria para poder entrar.

Nos dias mais escuros, todos os dias, às 20h, pontualmente, saímos na varanda para aplaudir a todos que estavam na frente de batalha contra o vírus e a todos nós na retaguarda. Um vizinho colocava música e, ao terminar, muitos gritavam: boa noite, vizinhos! Fiquei na vontade gritar “boa noite, John Boy”, mas na Espanha ninguém ia entender.

Nos dias claros da primavera, veio a liberdade do primeiro passeio e as crianças pediram para ir ver a escola.

Nos dias claros de primavera, descobrimos um parque que sempre esteve aí, nós é que nunca o usávamos. Nosso jardim e refúgio. Nosso reencontro com o mundo.

Nos dias claros de primavera, Hugo e Carol reencontraram a três amigos. Não eram grandes amigos antes da epidemia, mas as circunstâncias os transformaram nos melhores amigos do desconfinamento.

Nos dias claros de primavera, estamos nos libertando do medo pouco a pouco. Vamos voltando, como quem prova o mar para ver até onde dá pé.

Nos dias claros de primavera, reencontramos a família e comemos paella da Carmen. A melhor do mundo mundial.

Nos dias claros de primavera, fizemos planos de ir à praia e nos atrevemos a sonhar o futuro outra vez.

Hoje é verão. Hoje acaba o estado de emergência na Espanha. A próxima noite de São Joao marca o dia mais longo do ano. Quando a luz e o calor espantam os dias escuros. Mas também sabemos que a partir deste data, cada dia durará cinco minutos menos. O verão marca o começo do outono, do mesmo modo que é no inverno que começa a primavera. O eterno ciclo da vida.

Que a memória dos dias escuros nos ensine a ser cuidadosos nos dias claros. Mas que não nos impeça de viver felizes esta nova etapa.

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