Urgência de Viver

Não temos muito tempo, não temos “todo o tempo do mundo”. A Geração Coca Cola já viveu mais da metade da vida. De repente, surge aquela urgência de viver. Não dá mais para esperar pelo momento certo. A finitude está batendo na porta.

Se você já teve essa sensação aos 45, 50, 55, imagine seus pais (se ainda os tiver), aos 70, 80, 90. Adicione a isso um vírus mortal à solta em escala mundial. E uma reclusão que não tem data para acabar como única estratégia de sobrevivência possível. Se passou pela sua cabeça que “essas pessoas já viveram o que tinham para viver” ou que “vão morrer, mais cedo ou mais tarde”, faço um convite: pare agora de ler este texto.

Os avós de nossos filhos vivem, hoje, três camadas de angústia. A primeira é a de precisar, como todos nós, dar uma pausa na vida para sobreviver depois. A segunda é pensar: quanto tempo ainda restará para viver, depois que o “vai passar” virar verdade? A antropóloga Mirian Goldenberg, da UFRJ, disse em entrevista à BBC Brasil que os idosos, além de formarem o grupo com maior risco de morrer pela Covid-19, ainda sentem muito mais profundamente “a perda de seu bem mais precioso: a liberdade de ir e vir”.

Não fosse o bastante, ainda são sufocados pela terceira camada: o discurso de menosprezo e desrespeito, que só aumentou com a pandemia. “É triste saber, aos 83 anos, que se vive em um país que pretende prosperar sobre o túmulo de seus velhos. Nunca pensei que nós, os velhos, fôssemos tão odiados. Não era assim quando eu era jovem”, escreveu numa rede social o jornalista Nilson Lage, meu querido professor na ECO-UFRJ nos anos 90, que resiste produzindo conhecimento tão necessário para iluminar caminhos tão escuros.

Por eles, que nos geraram e criaram, é tão urgente o #ficaemcasa. Vamos nos esforçar agora, nesta grande sala de espera em que o mundo se transformou, para que tudo isso passe rápido, o mais rápido possível.

Mas precisa ser já, precisa ser para ontem.

 A avó do seu filho tem o direito ‒ e a pressa ‒ de passar batom, tanto faz se para ir à praça do bairro ou a Paris. O vovô tem o direito ‒ e a pressa ‒ de tomar chope de pé no balcão ou de ver o time jogar no Maracanã.

Eles têm urgência de viver.


Afinal, como escreveu o poeta Leminski, “você nunca vai saber o que vem depois de sábado; quem sabe um século muito mais lindo e mais sábio; quem sabe apenas mais um domingo.”

Não nos esqueçamos disso: chegaremos na idade deles.

Ou não.

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