Dois meses

Fase 0. Este é o momento que estamos agora na Espanha. O processo de abertura da quarentena será dividido por fases – quatro em total- em que cada uma durará pelo menos 15 dias. Para passar de uma para outra, cada província deve cumprir uma série de critérios, como quantas camas de UTI tem disponível e o índice de contágio. Cada fase permitirá fazer mais coisas e a vida vai voltando ao normal, ou melhor, a uma nova normalidade. Porque o distanciamento ainda será exigido, mesmo que seja em uma mesa de bar na calçada. Aliás, esta é a nova meta: na próxima semana abrem os bares que tenham mesas na calçada, mas só com metade destas mesas. Mesmo assim, uma alegria à vista.

Ainda estamos em quarentena, um pouco aliviada, mas em quarentena. As crianças podem sair uma hora por dia, entre as 12h e as 19h. A maioria do comércio ainda está fechado, mas esta semana podem abrir as livrarias e os cabelereiros. Mas é tudo muito complicado e ninguém entende bem as normas. Exemplo: eu poderia ir a uma livraria, mas não tenho nenhuma a menos de 1 km da minha casa e não posso dar nenhum passeio maior que esta distância. Então, se vou em uma livraria, posso ser multada? Ninguém sabe responder e dependerá de como o policial interprete a lei. Neste caso, melhor não ir e esperar a Fase 1, quando poderemos dar passeios mais longos.

Para os salões de beleza abrir é uma odisseia. Só podem atender a um cliente de cada vez. Tem que desinfetar tudo entre um e outro. Nenhum cliente pode esperar a vez dentro e muito menos lendo revista. Quem conhece a Espanha sabe que aqui tem pelo menos um salão de beleza em cada quarteirão. É um setor que emprega a muita gente, principalmente mulheres. Muitos dizem que não é rentável e abrem pelo desejo de voltar à vida, não para ganhar dinheiro.

Ainda não podemos sair da cidade, nem ir mais de duas pessoas em um carro. Não podemos visitar a nenhum amigo ou familiar. Tudo isto será permitido na Fase 1, se tudo vai bem, em dez dias. Poderemos viajar dentro da mesma província na Fase 2 e ir a outra província apenas na fase 3, que será em junho, sempre que os números permitam. E também é possível que uma província avance de fase, mas a do lado não. Então, as viagens a esta província continuarão proibidas. É uma confusão. Já tem muito meme brincando com isto. Imaginando isto em uma prova dentro de 10 anos: se você está em Granada na fase 2 e quer ir a Barcelona, também na fase 2, mas Madri está na fase 1. Por onde vai?

Este ano as férias de verão serão dentro do país. Os franceses já advertiram que as fronteiras estarão fechadas por um bom tempo e, quem entrar, vai ser obrigado a ficar em quarentena por 15 dias. Ninguém sabe se vão abrir as praias ou as piscinas e em que condições. Apenas vemos as temperaturas subirem neste início de maio de incertezas. Este ano voltaremos a umas férias à moda antiga: viagem de carro e perto de casa. Aliás, tem muita coisa voltando no tempo. As cidades pequenas voltam a ser valorizadas. O medo a uma segunda onda de contágios está fazendo a muita gente procurar casas fora da cidade. Casas com jardim, onde as crianças possam brincar fora em caso de novo confinamento. O apartamento no centro perto de tudo perde o valor, porque o tudo agora já não existe.

Leio tantas análises sobre o futuro da humanidade (no mundo Ocidental, claro) que é difícil saber quais acertarão e quais não. Mas aposto por algumas: cada vez mais os trabalhos e estudos serão mais on line. A Ministra da Educação espanhola já adiantou que, se em setembro não há nenhum tratamento eficaz contra a Covid-19, as crianças terão parte de aulas presenciais e parte on line. E se as crianças não passam parte do dia na escola, como os pais podem sair para trabalhar em um país que não existe babá (existe, mas é caríssimo)? Pois também trabalhando on line. Sem precisar morar perto do trabalho, sair da cidade será cada vez mais comum.

Também prevejo que será o fim do pequeno comércio de bairro. Se eles já lutavam para sobreviver, agora são quase inviáveis. Para provar uma roupa tem que desinfetar tudo. Quem vai ter confiança para entrar? Melhor comprar na página web das grandes marcas e pedir que entreguem em casa. O comércio eletrônico, que sempre detestei, vai destruir de vez ao pequeno. E teremos ruas vazias de vitrines e vida. Uma pena imensa.

Não queria terminar este texto sem algo de positivo para o futuro. Talvez os trabalhos e estudos on line façam voltar à vida as cidades vazias do interior espanhol. Talvez tenhamos uma sociedade mais comedida no consumo. Onde não seja normal pegar um avião low cost para um fim de semana em Milão, porque isto significa uma cadeia de problemas:  contaminação horrorosa de avião, uma companhia aérea que paga o mínimo a seus trabalhadores, uma hospedagem em um apartamento AirBnB, que expulsa o morador local em troca do turista, comidas em restaurantes iguais, museus lotados, onde ninguém vê nada, apenas faz selfie. Talvez seja a hora de voltar ao turismo de antes. Uma viagem por ano, com tempo para verdadeiramente aproveitar da viagem. Que não seja uma corrida para brilhar nas redes sociais.

Talvez seja o tempo de voltar ao próximo em todos os sentidos. Recuperar as redes de amigos e familiares da vida real. Momento do telefone, do pequeno encontro, da diversão perto de casa. O planeta agradece.

Eu sei, que esperança mais mixuruca! Mas é o que dá para o momento.

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