Dez semanas e a escola na quarentena

Nosso ano letivo está acabando junto com a pandemia na Espanha. No final de junho, se tudo der certo, terminará estado de emergência em vigor no país desde o dia 14 de março. Poderemos nos mover livremente pelo país (sempre e quando as províncias de origem e destino estiverem na mesma fase). Com máscaras e álcool gel, sem aglomerações, sem grandes shows, sem praias lotadas, enfim, a tal “nova normalidade”. Mas sim, se poderá ir à praia. Sim, abrem as fronteiras para o turismo (sempre e quando o país de origem não estiver ainda sofrendo os efeitos da epidemia). Sim, poderemos ir na casa dos amigos sem medo. Ou pelo menos com menos medo. E junto com tudo isto, acaba a escola. Ufa!

Quem lê este blog suponho que tenha filhos pequenos ou mais ou menos crescidos. E suponho que estejam vivendo o mesmo inferno escolar. E se não estão, que sorte! Porque eu estou. Com um filho na quarta série e outra na segunda, o que deveria ser simples, é sempre difícil. As escolas foram pegas de calça curta, da noite para o dia, sem estar preparadas para terminar o ano letivo à distância. Minha avaliação é, que embora todos os professores tenham dado o melhor de si, pelo menos na escola pública dos meninos, a educação primária não deveria ser on line nunca.

As crianças não estão habituadas a este tipo de ensino. O último trimestre do ano letivo se traduziu em fazer deveres. Cada professor criou uma página web para cada série. Eles sobem a programação semanalmente e cada um vai fazendo como pode. Também colocam vídeos do YouTube para completar as tarefas. Fazem propostas para investigar e tarefas lúdicas. Como disse, foi um esforço insano por parte do professores. Estamos muito agradecidos. Mas é sobre o outro lado que quero falar. Das crianças que recebem toda esta informação.

Cito um exemplo. Hugo está começando com suas primeiras classes de geometria. O professor manda alguns vídeos do YouTube. Logo, tem que ler a explicação no livro e fazer da página tal a tal. Para complementar, alguma tarefa um pouco mais lúdica. Ele não entende a tarefa bem, somos os pais que temos que explicar. Termina matemática, começa espanhol. Ele está aprendendo regras de acentuação. A professora manda ver alguns vídeos e fazer da página tal a tal. Ele não entende e somos os pais que temos que explicar quando se acentuam as paroxítonas.

E assim passa minha manhã. Multiplicada por dois, porque também é assim com a menina. Ao mesmo tempo tentando trabalhar, pensando no que fazer para almoçar, mantendo a casa minimente habitável. Suponho que minha rotina não seja muito diferente a de milhões outras famílias mundo a fora com filhos pequenos.

Que fique claro que não estou reclamando da escola, muito menos dos professores. Dadas as circunstâncias, foi o melhor que puderam fazer. Imagino que os professores, como nós, também têm filhos que atender, medo ao vírus e uma casa que cuidar. A escola não está pensada para ser on line e a escola pública espanhola tem um ensino tradicional e foi com ensino tradicional que continuaram.

A discussão se esta forma de ensinar é a melhor para os dias atuais não tem lugar, porque como se poderá fazer diferente assim de repente? A escola pode ser outra coisa sem nenhuma dúvida. Mais criativa e menos repetitiva. E fica claro que não podemos começar o próximo ano letivo deste modo. Com a carga toda nos ombros das famílias, com crianças aprendendo vendo vídeos, sem interação. Isto para mim não é ensino. Foi uma distração, um complemento burocrático, uma ilusão. Se é para que a vida seja uma parte on line, definitivamente não pode ser assim.

Estamos todos exaustos, sonhando com as férias. Crianças, pais e professores. E isto que aqui em Zaragoza as crianças não estão fazendo prova. Amiga que vive em Madri conta que lá sim estão fazendo. Prova oral com criança de sete anos. Que tem que fazer calculo mental com a professora por telefone. Um espanto!

Sem mencionar a todas as crianças que se perderam no caminho. Ou porque os pais não têm os meios tecnológicos para acompanhar, ou por falta de formação destes pais para ajudar, ou porque os pais não entendem a língua, etc. Na classe do Hugo, pelo menos um 10% de seus colegas não mandou nenhum dos deveres ou participou das classes on line. Imagino que multiplicado por todas as escolas do país, há um número expressivo de crianças que ficaram à margem do sistema, aumentado as diferenças sociais.

Como em tantas coisas da vida, a pandemia obrigará a escola a se repensar. Mas uma certeza eu tenho: escola primária tem e precisa ser presencial.

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