Brasil e Portugal

Paula Cury vive em Lisboa, Portugal. E fala como muitos brasileiros continuam com as piadas que mostram preconceito contra os portugueses.

Lógico que é brincadeira, lógico que não levanto polêmica, leio e pronto. Crescemos no Brasil ouvindo piada de negros, baianos (paraíba como se diz no Rio) e muito sobre portugueses, nossos colonizadores. Pois bem, prá começar que Ora pois, que sempre aprendi ser um termo português, não existe, ninguém fala isso aqui, usamos muito o pois, mas Ora pois foi o brasileiro que criou. Sim, o português é um povo literal, sim eles tem uma forma de pensar diferente, pelo menos em relação ao pensamento dos brasileiros, e eu me incluo nessa.

Hoje resolvi escrever sobre um lado que nunca me ensinaram sobre Portugal, apesar deu ter pais que adora, que inclusive quando saí para minha primeira viagem de mochilão pela Europa, me convenceram que Portugal tinha que estar no roteiro.

Sim, Portugal é pequeno, tamanho do estado do Piauí no Brasil, e fazendo um paralelo, sempre foi visto como o Piauí da Europa. O patinho feio. Ainda há aquela brincadeira que muitos brasileiros fazem: “Portugal fica bem perto da Europa”… Engraçado como vamos nos apropriando e defendendo o lugar que vivemos. Não gosto de ouvir falar assim de Portugal.

Já escrevi sobre minha adaptação em Portugal. Engraçado que nunca desejei viver fora do Brasil, amo ser brasileira e nos últimos 10 anos lá, me dediquei há Projetos sociais e sei que posso contribuir muito no nosso país, que tanto carece de educação.

Vim porque não me fazia mais sentido viver no Rio depois que me separei do meu ex marido.

Eis que, meu novo companheiro, hoje meu marido e pai dos meus dois filhos, sonhava em viver aqui.

Por mil e uma coincidências e circunstâncias da vida, nos mudamos, eu já grávida de Maria.

Não perdendo o foco, me deparei com um sentimento muito novo em mim, muita raiva do Brasil. Comecei a aprofundar em mim este sentir e me dei conta do quanto eu sofria calada e não percebia.

A pobreza, a indiferença, o preconceito, a burguesia, a paixão pelos Estados Unidos, os Bolsonarista, os políticos, as corrupção, a falta de acesso a educação e saúde, a defesa do porte de armas… Uma lista de coisas que eu sabia que me impactavam, mas não nesse tanto. 

Me vi num país rico, rico em cultura, em respeito ao próximo, com políticas públicas que realmente funcionam, hoje até gosto de pagar impostos, porque sei que se reverte em educação, saúde e muitas outras coisas em benefício da população.

Sim, sou muito feliz aqui, amo viver em Portugal, já aprendi a gostar de fado, só agora, apesar de ter tido um ex que escrevia sua tese sobre fado. Afinal sou do samba, do forró. Quando me perguntas das diferenças entre Brasil e Portugal, eu sempre respondo: Um é do samba, o outro é do fado, isso diz muito né não? Rs

Mas olha só, hoje me identifico mais com o valores daqui, com a simplicidade daqui, com os direitos que aqui temos.

Quando fui fazer o seguro do meu carro aqui, e perguntei para o vendedor sobre seguro contra roubo, ele riu e me disse: Não, aqui não tem necessidade. Que coisa esquisita para um brasileira não?

Sim, me sinto muito segura aqui, apesar de também me sentir no Brasil. Morava ao lado da favela (ou comunidade, o jeito chique de dizer) em Santa Teresa, me recusei a colocar sistema de alarme, minha maior proteção é o amor, amor ao próximo, compaixão. Frequentava a favela com muito respeito à todos que ali vivem. Uma vez levei meus sobrinhos na aula que eu dava para crianças, na comunidade Júlio Otoni e eles viram uma apresentação dos maiores em Maracatu. Felipe, meu afilhado me disse: Nunca imaginei que favela era assim. Eu respondi, cada favela é uma, esta é assim. Poderia ficar aqui horas falando de tudo isso, do nosso Brasil, e suas disparidades, as que vi no sertão da Bahia quando lá vivi, na Amazônia quando fui à trabalho para comunidades ribeirinhas de quilombolas, no Pará, no rio Trombetas, nas comunidades indígenas beira de estrada em Roraima e Acre.

Sim, conheço bem nosso Brasilzão, um país de muitos países nele.

Para terminar, volto para foto do feed. Sim, não gostei da brincadeira, principalmente porque nesse momento o brasileiro deveria satirizar a si mesmo, por ter eleito este presidente tão inadequado, que perante a pandemia mostra mais ainda sua cara, aquela cara que vi no discurso dele contra a “presidenta”, defendendo um coronel ditador que torturou muito, inclusive a própria. Mas ele reverenciava ali, publicamente, mostrando o mal que existe nele. Mas nada disso adiantou, na loucura desta cegueira, desta luta de poder da direita e da esquerda, onde o discurso presente era ser contra o PT, “não voto no Haddad, não voto no PT, então votarei nele”. Quanta hipocrisia, me desculpem julgar assim.

Estamos aí colhendo frutos dessa escolha, trocar o ministro da saúde é como trocar de camiseta. Agora perdendo mais vidas do que gostaríamos. Já em Portugal, um país socialista, a oposição se une para um bem maior. Já estamos no plano de desconfinamento, Portugal tem sido referência no mundo pelos bons resultados do controle do COVID-19.

Então brasileiros e brasileiras, parem de satirizar o português e de uma vez por todas, olhem para si, para o todo, e reconheçam as questões do nosso país. Parem de uma vez por todas de sentirem-se melhor que os outros, nessa arrogância que vem não sei de onde.

“Seja a mudança que você quer ver no mundo”, já dizia Gandhi.

Apesar de, amo nosso país e jamais desistirei dele

FIQUEM EM CASA, não escute quem diz o contrário, inspire-se nos bons exemplos.

Vamos sair dessa melhores, precisamos ter

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