A dança do tempo

Neste momento em que tudo verte para o lado de dentro, você me surpreende com uma força que estava guardada em alguma caixa esquecida. Me confessa que dorme mal, mas deixa escapar, buscando com os olhos um lugar distante, que acredita que na terra protegida pelo Buda as pessoas têm fé, “se unem por uma força de outra ordem”. Pensa que esta força mobiliza o país para um caminho mais saudável, nos fortalecendo no combate à mazela que assola a humanidade. E eu, que não perco a oportunidade de te contrariar, emudeci.

Na Tailândia as medidas práticas de prevenção à pandemia são mais rígidas do que na média do ocidente e, na minha percepção, essa é a grande diferença no controle da doença. Mas me calei porque, apesar da tristeza inevitável e dos medos que dominam este momento, te vi falar com a calma dos que veem coisas que não conseguimos ver.

Notei que em algum canto aí dentro o tempo passou e pontuei que estava diferente, longe de todas as velhas sombras, contrapondo a dor de um momento tão bruto e difícil com olhos abastecidos de lucidez e ternura. Não cheguei a te contar que me fez lembrar de quando ainda procurava no seu colo a coragem para seguir crescendo.

Hoje você enxerga as vantagens de se ter mais idade, diz que as escolhas e os caminhos parecem mais claros. Entretanto, não deixa disfarçar a expressão de trauma, quando comenta sobre o momento assustador do nosso Brasil. Contudo, não hesita afirmar “que não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe.”.  Acho que a idade conta sim, mãe, poucas vezes te notei em tão boa companhia: você com você mesma.

Tenho pensado nas pequenas coisas que, nas entrelinhas, foi me ensinando. E dia desses, enquanto organizava as ideias atacando a pia cheia de louça, Bento colocou o Chico para tocar e paramos tudo para dançar. Ali renasceram histórias da vovó Dagmar que eles não conheciam. Adorei te reproduzir de olhos fechados, balançando ombros e quadris, como quem fosse entoar o refrão iluminada pelos holofotes. Cheia de confiança inventava palavras erradas, tentando acompanhar as letras que você raramente lembrava. Mãe, eu morria de vergonha. Não tinha ideia de que um dia essas histórias iriam nos aproximar tanto.

Se da vovó herdei o benefício da reza – o encontro silencioso com esse centro interno cheio de potencialidades – com você e o papai aprendi a colocar todo o corpo em prece. Nunca tive essa consciência, mas em tempos de peito apertado, é com isto que vocês me libertam. Segundo a tradição dos Sufis, o coração do homem é como um pássaro fechado na gaiola do corpo e, quando dançamos, o coração canta como o pássaro que quer unir-se a Deus. Para estes sábios místicos, o coração é o lugar onde Deus se manifesta.

Por aqui a dança virou companheira cotidiana, cura contra o tédio das crianças, um novo ponto de conexão entre nós quatro e também deles com vocês, que construíram uma quilometragem alta de passos na minha memória. Penso que seguiremos ensaiando, imaginando que em um dia não muito distante atravessaremos as fronteiras do oriente para juntos cantarmos letras descompassadas, em uma cadência eufórica e emocionada pelo reencontro, depois de um tempo confuso onde você me ajudou, ao te ver tão inteira, a serenar.    

Comentários

  1. Lindo e emocionante texto!!!!
    SÓ posso agradecer, agradecer e agradecer!!!

    Que maravilha que nesse momento esteja passando toda essa serenidade!!!!
    É o caminhar da vida, filha!!!
    Te amo!!!Muito bom!!!

  2. Muito bom, como sempre, Bia! Sereno! Tal e qual o aprendizado. Adorei a imagem do pássaro/coração se alegrando dentro da sua gaiola. Dançar a vida e compreender que o movimento pode vir a acontecer em razão dos milhares de cantos submersos em nós mesmos. Que grande prazer recobrar os mais longínquos sons e suas formas, reconhecer o carinho nele contido e a força de nos trazer a tão sonhada serenidade!
    Meu carinho, de dentro da minha gaiola!
    Bj

Comentar