Um mês

Estamos há um mês em quarentena no país com as restrições de movimento mais duras de todo o mundo ocidental. Hoje é domingo de Páscoa e começamos a ver um renascimento, uma luz de esperança no final do túnel deste confinamento. Amanhã, retorna ao trabalho parte da indústria e da construção civil. Os demais cidadãos devem continuar trabalhando em casa ou – uma grande parte – continuar no desemprego.  Neste mês, os espanhóis foram exemplares no comportamento. Diz o estereótipo que os europeus do sul são uns desordeiros, mas não foi o que aconteceu. O #quedateencasa funcionou. Não cumprir a quarentena pega mal.  E este bom comportamento está dando resultado. O número de mortes foi reduzido, mesmo continuando altíssimo – hoje 600 – e, principalmente, no menor número de contagiados nos hospitais. Dando um respiro importante para as UTIs.

Mas isto está longe de ser fácil. Há um mês perdemos o mais básico dos direitos: o de ir e vir.  Aqui apenas podemos sair para comprar comida e perto de casa. Não pode passear. Não pode fazer esporte na rua. Não pode dar um passeio de carro. Aliás, só pode duas pessoas no máximo em cada carro. Se a polícia te para e você não tem uma justificativa para estar na rua, as multas variam entre os 300 e os 30 mil euros.

 Além da polícia, algumas pessoas também passaram a regular o que faz o vizinho. São os chamados “policiais de janela”. Chamam a polícia se veem alguém passeando. Casos horríveis de médicos e trabalhadores de supermercados sendo insultados, quando caminhavam na rua, confundidos com violadores de quarentena. Alguns pais de crianças autistas se viram obrigados a identificar seus filhos com braceletes azuis para que pudessem caminhar um pouco, e assim manter parte de uma rotina importante para estas crianças, para não serem vítimas de agressões verbais vindas das janelas gestapo. É assustador como as pessoas aceitaram esta perda de direitos e muitas, inclusive, pediam por mais. Como na China, com ruas bloqueadas para que as pessoas não saíssem de casa. Sim, o momento é muito grave. A quarentena é fundamental para conter a avalanche de casos, não argumento contra ela, apenas assisto perplexa como o medo fez muita gente pedir menos democracia.

Este pensamento único faz com que qualquer contestação seja vista como um ataque à saúde geral. Existe um movimento de pais que pedem que as crianças tenham direito a um passeio diário, como em outros países. Não é para brincar. É para dar uma volta de 100 metros. Por sua saúde física e mental, pela vitamina D, pela saúde ocular (terminarão todos míopes, com a vista colada nas telas boa parte do dia). Mas este pedido nem é levado em consideração. Somos vistos como uns mimados que não pensam nos outros. Sete milhões de crianças há um mês não pisam a rua e suas necessidades não são levadas em consideração. E pior, não podemos nem sequer reclamar. Porque devemos ter a ânimo elevado. Queixar-se é para fracos. Se você reclama, não está contribuindo. E isto é muito angustiante para mim.

Vemos pela janela a primavera chegar na cidade. As árvores que estavam peladas já começam a ganhar folhas. Esperamos este renascimento para também sair da nossa toca. Mas sabemos que pagaremos um preço emocional alto depois de tudo isto. Ouço a muitos mais amigos com medo de sair do que com vontade de tomar uma cerveja em um bar. Usar máscara vai ser o normal. Manter as distâncias, o esperado. Só espero deixar de ver a tristeza nos olhos de todos que encontro na fila do supermercado.

E quem está longe também sofre ao ver as notícias do Brasil. Uma mistura de desesperança e raiva. A preocupação com a família se mistura com a incredulidade de ver o pouco caso que se está tendo com esta doença. Na Espanha hoje se chegou a quase 17 mil falecidos. No Brasil, pouco mais de mil, um número ainda baixo para assustar a grande maioria das pessoas. Parece que ainda é distante. Aí temos a incoerência de alguns fazendo a quarentena e outros tantos que não. O que só vai fazer com que tudo demere mais a passar. Nosso tsunami está passando e daqui a pouco estará batendo na porta brasileira, com gente ainda brincando na praia. Desolador.

Uma amiga me disse esta semana que é uma mentira que estejamos todos no mesmo barco. Estamos todos na mesma tempestade. Cada um em um barco diferente. Concordo com ela. Tem gente de Iate. Tem gente de canoa. Parece que no Brasil as pessoas não têm nem sequer um salva-vidas. Como cada barco vai surfar o tsunami fará toda a diferença para quando as águas voltarem a se tranquilizar. O importante agora é, como diria a Dori, continuar nadando.

Comentar