Três Semanas

Três semanas de confinamento e ontem soubemos que serão – se não se prolonga outra vez – três semanas mais. Na verdade, todo mundo já assumiu que antes do 1º de maio ninguém vai sair de casa. E esta saída não vai ser de um dia para outro. Primeiro vão deixar as pessoas darem um passeio pela rua, abrir uma parte do comércio, por exemplo. Mas a escola é bem provável que não volte mais neste curso escolar. Talvez algumas semanas de junho, apenas para uma despedida antes das férias de verão. Restaurantes, cinemas, futebol, sem nenhuma data.

Próxima terça (dia 7) celebraremos os oito anos da Carol. Nenhuma criança deveria passar seu aniversário assim: sem amigos, sem o resto família.  Mas pelo menos vamos tentar manter algo de espírito de festa. Vai ter bolo, brigadeiro, presente (viva Amazon) e Coca-cola, o único dia do ano em que o refrigerante está liberado nesta casa. Mas a grande surpresa é que todos os amigos da escola se conectaram e cantarão juntos o Cumpleaños feliz, como manda a tradição. É a interação social possível nestes tempos estranhos de pandemia.

 Hugo me disse que já está se acostumado com o confinamento. Como qualquer hábito, com o tempo, nos acostumamos a tudo. Só não significa que gostemos dele. Os meninos estão mostrando uma resistência incrível em todo este processo. Jamais pedem para descer, muito pelo contrário, não gostam da ideia de ir para a rua. Esta semana tivemos que levar o Hugo a um dentista de emergência. Seu último molar de leite se partiu pela metade sem possibilidade de que caísse de forma natural. Ligamos para seu dentista habitual, que nos respondeu que não estava atendendo, porque tinha doado todas suas máscaras para o hospital. Afinal, pergunta daqui, pergunta dali, conseguimos um que atendia.

Nacho o levou até o centra da cidade. Uma cidade deserta, assustadora para o adulto, imagina para o menino. As poucas pessoas que cruzaram pelo caminho estavam mascaradas, andavam depressa, com a cabeça baixa. Uma cidade de pesadelo. A vida não está na rua. Está dentro de casa. O menino voltou feliz. Aliviado porque já podia voltar a morder e de estar na segurança do lar. Será que conseguiremos voltar a nos abraçar sem medo? A cruzar com uma pessoa pela rua sem se afastar? Esta volta será também bem pouco a pouco.

Este mês de abril será o mês da verdade na parte econômica. As contas vão chegar e as ajudas prometidas para as famílias têm que chegar também. Vamos empobrecer todos. Não tenho nenhuma dúvida. Mas se sobrevivemos de forma digna, já estaremos felizes.

Teve algo divertido? Sim. Ir no supermercado com a lista de compras no celular.O reconhecimento facial não funciona com a máscara tapando metade da cara. Aí você vai com a luva de plástico tentar digitar a senha e também não dá. Fica na dúvida, tiro a máscara? Tiro a luva? Não, melhor ir comprando o que lembra e da próxima vez trazer a lista escrita num papel. Melhor ser analógico outra vez.

Mas o mais divertido é que a vida continua aqui dentro. Nos encontros mais que especiais proporcionados pela tecnologia. Falamos como nunca por telefone. Desde o advento das redes sociais, estamos mais próximos de desconhecidos e mais longe dos amigos. Nos tornamos pessoas preguiçosas, que mandam um whatsapp para dizer feliz aniversário. Mas agora parece que voltar a falar passou a ser importante. Tomara que este seja o princípio de uma mudança nas nossas relações.

Também instituímos as noites de brincadeiras. Todos os dias depois do jantar, desligamos a tv e colocamos música alegre. São noites de mímica e de baile. De cartas e jogos. Espero que esta seja a maior memória desta pandemia. A vida agora está em um parêntesis. Vemos angustiados tudo o que ficou de fora: o casamento da sobrinha adiado por um ano, a viagem de férias para o Brasil, o trabalho, a escola, o sapato que íamos trocar e que ficou aqui. Tudo interrompido. Cortado. Estamos dentro do parêntesis. Mas aqui dentro estamos descobrindo que também temos vida para ser vivida. Nos acostumamos, mesmo não gostando.

Comentar