Sete semanas

Uma das minhas resoluções do último ano novo é que finalmente leria clássicos da literatura universal, que durante anos ficaram esperando minha atenção. Comecei escalando a Montanha Mágica de Thomas Mann. Quando comecei o livro, no calor de Natal onde passamos o fim de ano, jamais poderia imaginar que me identificaria tanto com a história. Thomas Mann conta a história de Hans Castorp, um rapaz simpático que vai visitar o primo em um sanatório para tuberculosos em Davos, na Suíca, em princípio por 15 dias e fica quatro anos. No isolamento do sanatório, Hans se descobre doente, encontra uma sociedade com outros padrões de comportamento, outras regras sociais e um controle férreo dos médicos, que determinam quem pode e quem não pode voltar para o mundo lá de baixo. Também descobre outra relação com o tempo, onde a unidade mínima de medida é o mês. Ninguém conta os dias. Contam-se os meses.

O mais fantástico do livro é que Mann escreve como nossa percepção do tempo é relativa. Como ele parece passar rápido às vezes e como se arrasta em outras. A narrativa também é assim. À vezes lemos 100 páginas em um fôlego, à vezes custa ler 20. O autor conseguiu que nossa percepção do tempo do livro fosse igual ao do personagem. E assim entramos totalmente no mundo de Castop, na sua rotina férrea, onde todos os dias são iguais e que cada celebração serve para marcar o tempo, saber o mês em que se está, inclusive o ano.

A relação com o tempo que vivemos no confinamento é parecida com a do personagem. Temos a sorte de não estarmos doentes, nem de estarmos em um sanatório. Estamos em casa com a família. Mas encontro muitas semelhanças. Não contamos dias e sim, semanas. Estamos na sétima. A semana é nossa unidade mínima de medida. A semana é a referência para tudo. Não sabemos a diferença entre a segunda e a terça, ou entre a quarta e a quinta. A não haver diferença entre o de fora e o de dentro, isto é, entro o espaço do trabalho/escola e a casa, entre o descanso e o trabalho, entre o lazer e a intimidade, perdemos o sentido do tempo. Preciso contar as semanas para saber quantas faltam para nossa liberação.

O tempo se arrasta na rotina férrea. Aí marcamos em vermelho no calendário todas as celebrações: dia dos pais, o aniversário da filha, da cunhada, do livro, o próximo dia das mães. Dias sempre celebrados, obviamente, mas que agora ganharam a força de pontos de referência no calendário sempre igual. Se não fossem por estes dias, já tinha perdido a conta das semanas. Os dias se arrastam, mas estes dias especiais passam depressa.

Em determinado momento, Castorp personagem deixa de desejar voltar para o mundo abaixo da montanha. Não foi apenas ter se acostumado a sua rotina. Ele passou a gostar daquela micro sociedade, com normas de comportamento menos rígidas do que aquela de onde ele veio. A proximidade da morte e a distância faziam com que o sanatório fosse quase uma libertação.

Nós desejamos sair, mas não temos montanha de onde descer. Não existe mais o mundo que a gente deixou. Nossos trabalhos estão desaparecendo e os que ficam, estão em processo de mudança: mais on line, menos horas, intervalo de dias, etc. Estamos nos relacionando também de outro modo. Proximidade na distância. Falta confiança no outro. Sobra medo. O outro só é confiável na tela ou na janela.

Ouço muita gente dizer que na verdade, como Castorp, não tem nenhuma vontade de voltar para onde estava. Muitas horas de trabalho, transito, tempo para nada. Que este vírus veio para que reflitamos sobre o que realmente é importante. Sobre se de fato precisamos de tudo aquilo que tanto trabalho dava para conseguir. Para estas pessoas, talvez todo este tempo em casa realmente seja uma sorte. Resta se perguntar, se apesar do medo das incertezas, se cada um quer de fato voltar ao mesmo ponto.

Quando na verdade, quem mora fora, sabe que voltar não existe. O que deixamos nunca está exatamente no mesmo lugar. “Ninguém volta ao que acabou”, já escreveu o Chico. O mundo não fica congelado no tempo esperando a tua volta. No nosso confinamento, nas somas das semanas, o mundo seguiu seu curso. Voltaremos, mas vai ser para outro. Às vezes mais parecido, às vezes menos. Mas igual já não é mais possível.

Comentários

  1. Lindo texto, Rosane!!! Ontem, à noite, um amigo músico, que conheci melhor por conta da “live” que fizemos na sexta, ficou surpreso quando eu disse que a foto tirada em Brisbane em outubro passado parecia antiquíssima – uma lembrança feliz de uma realidade inatingível hoje.
    Não sabemos que mundo nos espera após esse período de isolamento social. Não sabemos nem se voltaremos a ter um convívio social como conhecíamos.
    Seguimos juntas nessas descobertas. Um beijo e boa sorte!

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