Quarentena na Inglaterra

Ana Signorini nos manda um texto lá de Londres, contando como está vivendo a quarentena com sua família.

Há quase dois anos e meio, quando mudamos do Rio para Leeds, no norte da Inglaterra, vivemos uma transformação radical em família. Quem muda de país sabe que vai ter que re-estabelecer sua rotina do zero, entender e incorporar novos hábitos, dominar uma língua nova, desapegar de coisas e lugares e desconstruir um monte de certezas para se abrir para o novo. A saída da zona de conforto faz com que a gente viva a resiliência na prática, sem demagogia e com coragem.

Começamos a ouvir falar do Coronavírus no início do ano. Meu marido é professor universitário e grande parte dos seus alunos vem da China, muitos da cidade de Wuhan. Quando ele contou que os alunos estavam em quarentena e voltaram para a sala de aula usando máscaras, achei aquilo estranho, sem imaginar o que viria pela frente. Até que o vírus chegou com força na Europa e, quando o número de doentes começou a subir por aqui, lembro de conversar com minha mãe no telefone e ela ainda reagir como se fosse algo muito distante do Brasil. Eu disse: “espere algumas semanas.”

Hoje o Coronavírus está espalhado por todo o globo, em maior ou menor escala. A Inglaterra, que começou com uma abordagem diferente, logo se ajustou ao resto do mundo e adotou o distanciamento social. Por enquanto, podemos ir ao supermercado e sair uma vez por dia para ir ao parque fazer exercícios, desde que fiquemos apenas em família e a dois metros de qualquer outra pessoa. Minhas filhas falam: “Cuidado, humanos!” e se afastam dos poucos que passam por nós durante a caminhada. Ouvimos os pronunciamentos do governo na TV todos os dias às 17h e sinto confiança nas medidas tomadas.

Penso que, de certa forma, o imigrante já teve uma preparação prévia para momentos como este, por mais inusitados que possam ser. Vejo conhecidos no Brasil postando fotos de chamadas por Skype, Whatsapp e Zoom entre avós e netos, primos e amigos e essa distância física é algo com o que já tivemos que nos acostumar há um tempo. Da mesma forma, somos nós mesmos que limpamos nossa própria sujeira e cozinhamos nossas refeições, sem nenhum tipo de serviço doméstico, coisa que não existe por aqui. É claro que há um vírus assustador do lado de fora, o que muda muita coisa, mas já experimentamos a sensação de contar apenas com nós mesmos. Fazemos companhia uns para os outros e sabemos que somos capazes de suportar muitas mudanças em nossa rotina, entendendo que nem todas serão fáceis.

Na Inglaterra, a memória da primeira e da segunda guerra é muito viva, e este assunto é amplamente abordado na escola desde cedo. Está presente nas leituras, nas aulas de história e nas datas comemorativas. Ouvindo as analogias usadas pelo primeiro ministro em seus discursos, sentimos este espírito de luta e força se reacender, ainda que durante as guerras as pessoas tivessem que se juntar em abrigos e na pandemia precisam se isolar para protegerem umas às outras. Lembro de duas expressões que aprendi desde que nos mudamos pra cá: safeguarding e Silver lining. Notamos um grande movimento comunitário, que é muito ressaltado também na escola pública. Quando finalmente é anunciado o fechamento, a diretora escreve aos pais garantindo que a alimentação continuará a ser distribuída para os alunos que necessitam e que as crianças que são filhos de trabalhadores-chave (entre eles funcionários do sistema de saúde, de supermercados, entregadores, policiais, etc.) continuarão a ter acesso à escola, assim como as crianças consideradas vulneráveis, que muitas vezes estão em melhor situação na escola do que dentro de casa. A igreja e um grupo do nosso bairro distribuem folhetos em que voluntários se oferecem para fazer compras de supermercado para aqueles em isolamento ou para os grupos de risco. É também possível receber telefonemas caso você esteja sozinho e precise de alguém para conversar. A organização para saúde mental da nossa cidade entra em contato para saber se precisamos de assistência gratuita por telefone ou online. Estamos dentro de casa, de quarentena, em um país estrangeiro, mas curiosamente não nos sentimos sozinhos.

No quintal da nossa casa e na ida diária ao parque do bairro, acompanhamos as flores aparecendo e o clima mudando. É primavera, estamos em horário de verão e os dias ficam cada vez mais longos. Depois de meses de inverno, a temperatura está mais amena e aproveitamos o sol da forma como é possível, sem o burburinho que os ingleses costumam fazer nesta época do ano, mas talvez apreciando com mais cuidado todas as mudanças da natureza e o bem estar que ela nos traz. Com maior ou menor sucesso, buscamos estabelecer um ritmo para os dias, conversando sobre o que está acontecendo com as crianças e intercalando na rotina recém desenhada momentos de trabalho e descanso, exercícios e relaxamento, notícias e fugas da realidade. Fazemos esforço dobrado para acompanhar a crise no Brasil e na Inglaterra e as respostas de ambos os países para a crise atual. As crianças fazem perguntas e se alternam entre dar trabalho e cooperar. Sentem falta da escola e dos colegas, mas buscam conosco entender o que está acontecendo, na medida do que é possível compreender. A escola manda ideias de atividades e exercícios e as professoras telefonam uma vez por semana para saber como as meninas estão lidando com tudo isso. Sento-me com minhas filhas para assistir ao noticiário da BBC especificamente voltado para as crianças, que explica na linguagem delas as notícias do dia, bem ao estilo inglês que não doura a pílula para os pequenos e busca incluí-los na realidade ao redor. Lembro de quando elas nasceram, no Rio de Janeiro, e do tempo que passei com elas em casa, apreciando a vida em pequenas porções. Mais um dia vai terminando e conversamos sobre as coisas pelas quais somos gratos. Cada um escolhe três coisas, que podem ser pequenas ou grandes, e a mais velha anota em um caderninho, em frases que misturam inglês e português. Refletimos sobre o movimento que já fizemos e sobre o quanto podemos ser fortes para encarar as mudanças que a vida traz.

Comentários

  1. Oi Ana , bom saber de vcs aí. Gostei do seu relato e saber o qto vcs já estavam preparados e o qto as crianças são apoiadas para sua compreensão do que está acontecendo. Muito legal!
    Aqui quase tudo é por nossa conta. Vc sabe bem como acontece!
    Um beijo em todos e se guardem!

Comentar