Cinco Semanas

Começamos nossa sexta semana de confinamento com boas notícias, dentro do panorama possível de boas notícias: as crianças vão todas passar de ano e a partir do dia 27 de abril poderão, mesmo com muitas limitações, dar um pequeno passeio perto de casa. Sabe o que é respirar de alivio? Estamos há cinco semanas em casa. Mas o adulto, bem o mal, compra comida. Desce com o lixo. Passeia o cachorro, quem tem cachorro, claro. As crianças não podem nada disto. São o único coletivo com restrições máximas de movimento. Além disso, são dos que mais teletrabalham. Deveres que chegam, classes on line, a obrigação de cumprir uma meta, sem o prazer de brincar com os amigos no intervalo, sem o direito nem de dar uma volta pelo quarteirão.

A apatia começava a tomar conta dos meninos. Relutam em sentar e fazer as tarefas. Se para o adulto é difícil se concentrar neste contexto, esperar que eles tenham boa vontade em aprender a tabuada ou o sistema métrico, é pedir muito. E mesmo assim eles estão cumprindo com seus deveres. Mostrando uma resiliência admirável, invejável mesmo. Apesar disto não nos parecia justo que eles ainda tivessem que passar por provas. E mais injusto ainda para quem não tem os recursos que nós temos: computador, internet, impressora. Muitos dos amigos têm apenas um telefone em casa. A ordem do Ministério da Educaçao chegou para nos dar um respiro. Não que eu achasse que os meninos fossem repetir de ano, mas me parecia um absurdo que eles aprendessem um novo conteúdo desta maneira, nesta idade. Pelo menos agora, eles vão ficar repassando o já aprendido, aprender a estudar de outro modo e deixar para o próximo ano escolar o conteúdo deste último trismentre.

E para a alegria geral da nação aqui de casa, ontem foi anunciado oficialmente que as crianças poderão dar um passeio a partir do dia 27 de abril. Algo que muitos pais vínhamos pedindo há semanas. Mesmo que isto não signifique brincar, pelo menos poderão respirar um pouco de ar fresco. Ainda não sabemos quais são as condições: se serao todos os dias ou dias alternados (em Andorra, por exemplo, cada dia sai um grupo. Um dia sai que vive em um número par, outro dia sai quem vive em um número ímpar), por quanto tempo. Ainda falta uma semana, mas esta noite já sonhei com este passeio. Sonhei que caminha pela cidade com os dois. Como algo tão simples pode ser tão especial.

Mesmo assim, vejo muitos comentários de pais que são contra. O medo aqui é grande. Hoje tivemos a menor cifra de mortes em mais de um mês: 410. Um número altíssimo para que muitas pessoas se animem a descer com seus filhos para a rua, mesmo para uma simples volta no quarteirão.

Este medo é na verdade o que mais temo na chamada “desescalada” do confinamento. O medo do medo. É duro começar uma quarentena, mas sair dela pode até ser mais difícil. É uma questão de confiança. Meu medo é que, mesmo que nos permitam reabrir a escola onde trabalho, se nossos alunos terão confiança suficiente em voltar. Não vai ser fácil. Estas tenebrosas semanas nos deixarao marcas por muito tempo e em muitos aspectos da vida. Quando teremos coragem para levar os meninos a abraçar os avós?

Temos muitas perguntas no ar. Poderemos ir à praia no verão? Poderemos sair da cidade? Não podemos esperar uma volta à como estávamos em fevereiro. Sair de máscara será o normal. A distância física, obrigatória. Temos muito que pensar sobre o que vamos fazer para os próximos meses, e talvez anos, sobre como vivemos e como trabalhamos. Mas me dá raiva quando escuto dizer que a economia vai mal porque apenas consumimos o essencial. Uma crítica fácil ao consumismo da humanidade. Uma das muitas meias verdades destes tempos. Raiva porque também considero ir a um bar tomar uma cerveja e falar bobagens com os amigos algo essencial.  Ir ao cinema é essencial. Se vestir é essencial. Pegar um avião e ver a família é fundamental. Talvez seja o momento de voltar, não ao essencial, porque já estávamos nele, mas voltar ao “prazer legítimo e ao movimento preciso”, como um dia Caetano pediu ao Tempo. Nestes dias escuros é nele onde tenho me refugiado, à espera de dias melhores.

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