Uma semana

Uma semana de confinamento. Uma semana que os meninos não pisam a rua, presos em um apartamento. Uma semana em que tudo mudou. Uma semana em que o mundo não é mais o mesmo. Parece que já faz uma eternidade, mas só passou uma semana.

Agora parece que somos imãs com o mesmo polo. Quando cruzamos com alguém na rua, ao descer para jogar o lixo fora ou quando vou comprar fruta fresca, todos se afastam. Dois metros é melhor que um. Se tem alguém vindo na direção oposta, é melhor atravessar a rua. Você vê um vizinho, cumprimenta com a cabeça de longe, rápido, com vergonha. Mas dentro de casa está permitido conversar aos gritos pela janela. Todos são simpáticos na janela, mas na rua nem oi.

A ida ao supermercado é a grande aventura. O melhor, o super alemão do bairro. Eles, desde o primeiro dia, colocaram um segurança na entrada com luvas de plástico e álcool gel para todos os clientes. Só pode entrar um número limitado de pessoas ao mesmo tempo. Tem fila na porta, mas quem se importa? De repente, passamos a gostar de fila debaixo do sol fraquinho deste começo de primavera.

O super que temos na porta de casa ainda não colocou estas medidas de proteção. É o meu super. Conheço todas meninas do caixa. Uma inclusive é minha aluna de fotografia. Elas me olham com o cansaço estampado na cara. Ou pelo menos na parte da cara que podemos ver detrás da máscara. A única proteção que estas meninas têm no meio do aluvião de clientes comprando. Hoje li no jornal que este super terá que fazer o mesmo que o alemão. Fico feliz e aliviada pelas meninas.

 Nacho ainda trabalha, informática não para e muitos clientes estão montando teletrabalho nas suas casas. A escola onde trabalho está fechada, sem prazo para abrir. Fomos mandados todos ao seguro desemprego. Mas tentamos manter a escola “aberta” com propostas de fotos para que os alunos façam nas suas casas. Esperando que, economicamente, a situação não se prolongue demasiado, porque está sendo uma calamidade para todos os setores, mas para a cultura e para os trabalhadores autónomos é uma tragédia sem precedentes. Esta semana, tivemos que consolar uma grande amiga que trabalha no RH de um pequena empresa de lanchonetes e teve que demitir a todos seus trabalhadores. A mesma coisa outro amigo que tem uma empresa familiar de móveis. Todos na rua, inclusive ele. As ajudas económicas prometidas pelo governo espanhol ainda são modestas.  Mas, se comparamos com o Brasil, ainda temos seguro desemprego. Não sei o que vai passar no Brasil. Confio no engenho e na capacidade do brasileiro para sobreviver na adversidade. Porque deste (des)governo só podemos esperar o pior.

Para minha surpresa, quem está levando melhor a situação são as crianças. Compreenderam o tamanho do problema. Nao pedem rua, nem descer para jogar bola, mesmo vendo o parque abaixo banhado de sol. Nao existe nada que me doa mais que ver meus filhos presos. E eu me considero uma privilegiada, porque nosso apartamento é espaçoso e temos uma pequena varanda. Mas penso em quem não tem. Uma mãe de um amigo da Carol me conta que aproveitou que a vizinha deixou a cidade, antes que as viagens fossem proibidas, e deixa as crianças brincarem no corredor do andar. Uma válvula de escape para quem tem duas crianças pequenas em um apartamento de 50 m e sem varanda.

De manhã é a hora da escola. Os professores mandaram as tarefas pelo whatsapp e vamos fazendo. Novamente sou uma privilegiada. Temos computador, laptop, boa wifi, impressora e boa escolaridade para ajudar nossos filhos para continuar aprendendo. Mas no grupo da escola, outras famílias não tem esta sorte. Muitas não tem impressora para imprimir as tarefas. Outras não tem computador ou só um para toda a família, que tem que dividir entre o trabalho dos pais e os deveres de vários filhos. Alguns imigrantes mal falam espanhol. Como podem ajudar nos deveres? Por mais que os professores estejam fazendo tudo o que podem para manter as classes em dia, as diferenças sociais só aumentarão.

Mas provavelmente a escola seja o menos importante. Que importância tem se a menina da segunda série não vai aprender bem sua lição sobre invertebrados? Ou que o menino da quarta está perdendo classes de inglês? Eles vão recuperar isto rápido quando volte a escola. Os deveres servem a que eles sintam que tem uma rotina. E isto ajuda.

 Outra coisa que temos aprendido é que a PlayStation, que tanta dor de cabeça nos dava, controlada com mão dura, liberada apenas nos fins de semana, agora é nossa grande aliada e responsável de que a vida social continue. De tarde, se encontram para jogar juntos ao Fortnite. Uma multidão de crianças ao mesmo tempo. A maior gritaria na sala. Quem diria que íamos gostar disto.

As relações sociais agora são estas: hang out, whatsapp, Skype. Três, quatro amigos ao mesmo tempo conectados. Carol brincando de boneca com a amiga pela tela do celular. Eles se adaptam, mas para mim é uma dor. Criança precisa de sol. De contato físico. De correr. A quarentena é importantíssima, mas deveriam pensar na saúde física e mental destes pequenos. Espero que pouco a pouco, eles sejam levados em consideração, especialmente agora que acabamos de saber que a quarentena durará como mínimo até o dia 16 de abril.

Vamos iniciar a segunda semana com muitas incertezas no caminho. Mas, bem de saúde e unidos. O resto virá.

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