Duas semanas

Duas semanas de quarentena com a rotina instalada. Acordar, café e começar a “escola” em casa. Comprar comida (duas vezes por semana), preparar o almoço, almoçar, corrigir os deveres, inventar algo para as crianças fazerem até às 18h, quando a PlayStation é liberada. Às 20h é hora de ir para janela aplaudir. Já não sei mais a quem aplaudimos: aos profissionais da saúde, aos trabalhadores dos supermercados, aos caminhoneiros, às crianças ou a nós mesmos. É a hora em que você vê os vizinhos e troca alguma informação aos gritos pela janela. Depois do aplauso, tem gente que põe música, enfim, a tentativa de mandar ânimos de uma janela para outra. Nacho prepara o jantar e depois é hora da brincadeira em família. Apagamos a tv, os telefones e cada dia um jogo diferente: mímica, jogos de mesa, de dançar e assim vamos levando. No dia seguinte, outra vez igual.

Nesta semana, vivemos cenas surrealistas, de filme sobre futuros distópicos. Agora só saio de casa com o carrinho da compra. Porque uma das poucas coisas que estamos autorizados a fazer é comprar comida. Então, todos saem puxando o bendito carrinho, porque sem ele, a polícia pode te parar e multar. Parece aquele filme A Estrada (The Road), onde Viggo Mortensen, em um Estados Unidos pós apocalíptico, empurra um carrinho de supermercado. Pois assim estamos, mascarados, empurrando um carrinho, evitando o contato com o vizinho.  

O que aprendi nesta semana? Primeiro, que a escola em casa é o menos importante. Claro que não digo isto para eles, quero que eles tenham ocupadas as manhãs, mas não passo para os meninos tudo o que mandam, nem obrigo a que estejam a manhã inteira trabalhando. Paramos para o “recreio”, fazemos educação física e que se movam um pouco. Deixo tempo livre para brincar e criamos o desafio de resgatar algum brinquedo esquecido. Os meninos estão bem. Apesar da falta que sentem dos amigos, do resto da família, do esporte, de correr. Mas acho que são eles os que menos reclamam.

Também aprendi que já não posso lutar contra as circunstâncias. Não sei se poderemos ir ao Brasil em julho, não sei se a escola dos meninos ainda volta este curso escolar, não sei se teremos trabalho na saída desta crise. Não sei nada. Na verdade nunca soubemos. Apenas parecia que sim.

Também não sei se seremos melhores quando tudo isto acabe. Não creio que sofrimento ensine nada para ninguém. Sofrimento é apenas sofrimento e só queremos que ele acabe. Quero que acabe esta enxurrada de mortos diários nas notícias, de dor de tanta gente, algumas que conhecemos de perto. Queremos poder abraçar à família, aos amigos. Queremos dar uma simples volta de bicicleta. Pensar que isto ensinará algo para a humanidade é ter demasiada fé no ser humano. Porque se a epidemia trouxe muitos gestos de solidariedade, também trouxe muitos outros egoístas e autoritários. No fundo sempre seremos quem somos. Apenas agora demonstramos isto em um espaço mais reduzido.

O Papa disse, numa praça São Pedro vazia, que estávamos tendo vidas normais em um mundo doente. E que esta incoerência estava agora cobrando seu preço.

Por mais bonita e imponente que seja esta frase, não acredito nela. O mundo não estava doente. Para nosso planeta tanto fez como tanto faz. O tempo dele é outro. Se nós decidimos nos matar, destruir toda e qualquer natureza, o planeta continua. Nós é que sempre estivemos ao pensar que somos mais poderesos que os outros seres deste planeta. Talvez o grande aprendizado seja ver o quanto pouco importante somos, que podemos ser destruídos por um ser invisível e minúsculo. Quanto planos destruídos por simples vírus.

Se aprendemos simplesmente que temos que valorizar a saúde e a educação públicas, a ciência, que as pessoas mais importantes são as que estão na trincheira do teu lado, já seria o máximo.

Se algo vai ficar na minha memória desta segunda semana, foi o dia em que desci para jogar o lixo fora e, para caminhar alguns metros mais, em vez de levar na lixeira da minha rua, levei na rua paralela. E foi justo na hora do aplauso. Quando voltava, vi todas as pessoas nas suas janelas e varandas aplaudindo, cada casa uma luz, uma esperança, para que cada dia seja um dia menos.

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