Diário de uma quarentena

Há uma semana fomos aos Pirineus. Os meninos brincaram na neve pela primeira vez neste inverno. Olhei para aquelas montanhas, respirei fundo, agradeci e chorei. Sabia que quando descêssemos, nada seria como antes. Escondi as lágrimas rapidamente para os que os meninos não vissem. Fizemos bolas de neve, empurrei o pequeno trenó, rimos. Depois recolhemos tudo, almoçamos hambúrgueres em um bar e voltamos para encarar a mais rara, inédita e inacreditável das semanas.

Quando as notícias do isolamento da cidade chinesa começaram a chegar, tudo parecia muito distante. Mas nunca deixei de pensar: e se acontece aqui também? Quando os primeiros casos apareceram na Espanha eram todos importados: uns turistas isolados nas Ilhas Canárias, outro que chegou da China. Nada com a gente. Quando o caso estourou na Itália era domingo de Carnaval. Levei as crianças para ver o desfile infantil de manhã e depois fomos almoçar com a família, que era aniversário da avó dos meninos. A conversa já tinha mudado de tom. Já se falava em medidas preventivas. Evitar aglomerações, lavar as mãos, etc. No dia seguinte comprei álcool gel na farmácia perto de casa. Restavam dois frascos. Um grande e um pequeno. Comprei os dois e foi uma sorte. Uma amiga pediu para comprar no dia seguinte e já não havia e nenhuma previsão de chegar mais. Passei a evitar o transporte público e, para trabalhar, como vou de bicicleta comunitária, passei a usar luvas.

No domingo dia 8 de março, quando ocorreram as grandes manifestações pelo dia da mulher trabalhadora, me pareceu uma loucura participar. Não passei nem perto do centro. Os casos em Madri já tinham disparado e, mesmo assim, os estádios de futebol – e de todos os outros esportes – os congressos políticos, os cinemas, teatros estavam todos funcionando como sempre. Aí, na segunda-feira, diante do quadro mais grave veio o anuncio: as escolhas de Madri fechavam e Itália inteira de quarentena. Espanto e incredulidade.

Mas aqui em Zaragoza a vida estava mais ou menos normal. O assunto estava na boca de todos, mas o governo local anunciava que aqui não tinha porque fechar nada. Tomei café com uma amiga médica, que trabalha em um dos grandes hospitais da cidade, e ela dizia a mesma coisa: “Aqui não estamos graves. Não há razão para parar”. Saí da cafeteria, lavei minhas mãos com álcool e fui trabalhar. Na volta, todos os bares do meu caminho estavam cheios. As pessoas tomando sua cerveja em aparente tranquilidade.

Mas a cada dia as notícias pioravam. Fecham as escolas de La Rioja (outra comunidade da Espanha, equivalente a um dos nossos estados). Fecham Vitória, no País Basco. Fecham uma região da Catalunha. E eu só pensava: “se chegamos ao fim de semana sem fechar Aragón, será uma vitória”. Mas não chegamos. Na terça-feira, começou a corrida aos supermercados. Correu como a pólvora. Fui fazer minha compra normal no super que está na frende da minha casa e o que encontrei foi a histeria. Uma mulher gritava com um dos seus familiares para pegar mais macarrão. Mais congelados. Uma funcionária tentava tranquiliza-la, mas estava histérica e neste momento foi a primeira vez que vi o medo se transformar em uma pessoa. Era medo que falava. Gritava. Minha garganta fechou, traguei a angustia e fui para a casa com um pacote de macarrão maior que o habitual.

Na quarta, Nacho não queria levar os meninos na suas classes de inglês e ginástica. Mas eu insisti. “Leva, porque pode ser que sejam as últimas em um bom tempo.” Infelizmente, estava certa. Na quinta-feira veio a notícia que ninguém queria: fechavam todas a escolhas de Aragón. Das creches à Universidade. Na sexta-feira, levei as crianças para seu último dia de escola e o panorama na porta era de tristeza, espanto, medo e desconcerto. É o nunca vivido. Uma outra mãe amiga me olhou com os olhos cheios de lágrimas, os meus também se encheram, mas tragamos o choro. “Vai passar”. É o lema geral. De noite, o presidente de governo Pedro Sánchez foi para a tv declarar estado de emergência nacional e quarentena obrigatória para todo os país.

Desde sexta-feira, estamos saindo cada vez menos de casa. Sábado, aproveitamos a linda manhã de sol para descer com os meninos a uma das zonas verdes do bairro. Deitei-me no gramado e deixei que o sol do final de inverno me desse um pouco de energia. As margaridas silvestres brotam por todos os lados, a natureza segue o seu curso, independente da nossa angustia. De tarde, vimos pela janela que uma amiga da Carol brincava no parque que temos debaixo de casa. Ela pediu para ir brincar também. Disse que não. Que podemos descer um pouco, mas não podemos estar com outras pessoas. “Se eu não estou doente e minha amiga também não, por que não podemos brincar juntas?” Ela ficou brava e eu fui chorar no banheiro.

A partir desta próxima segunda, dia 16 de março, já não poderemos fazer o que fizemos sábado. Descer um pouco, correr, tomar o sol. Estão anunciando multas para que não cumpra a quarentena. Só podemos sair para comprar comida e trabalhar, os que ainda tem onde trabalhar. Há menos de uma semana não tínhamos razão para parar e agora não posso dar uma volta no quarteirão sem um motivo. Apenas para comprar o pão e comida. Decidi que não irei mais no super de frente. Irei a outro, no outro extremo do bairro. Até que alguém de diga que já não posso mais andar três quadras como carrinho da compra.

Como me sinto? Com raiva e impotência.  É o sentimento que tenho. Dizem que ficaremos confinados 15 dias, mas será? Os chineses estão há dois meses isolados. Como vai ser? Minhas conta de luz e água também ficarão de quarentena? Sou professora em uma escola de fotografia obrigada a fechar. Será que reabriremos? Macron, presidente francês anunciou seguros de desemprego para todos os franceses. Isto dá tranquilidade ao trabalhador. Mas aqui até agora não.

As redes estão cheias de pessoas com boas intenções dando conselhos para ficar em casa. Atividades com as crianças, filmes para ver, jogos em família. Fazer cartazes para colocar na janela para dar ânimos aos vizinhos. Teatros e shows por streaming. O hashtag “yomequedoencasa” (eu fico em casa) está na moda e as pessoas parecem aceitar com resignação. Queria ser uma delas. Não sou. Eu não quero ficar em casa. Não é falta de solidariedade. É não aceitação. Vou cumprir a quarentena como todos. Só não peçam para ver meu sorriso.

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