Carol

– Mamá, o que é a vida?

Não pensem que eu me surpreendi com mais esta pergunta da Carol. Ela entrou na etapa do “por que?” com três anos e, agora com sete, ainda não saiu. Só não soube o que responder. Será que alguém sabe?

Com três para quatro anos, as perguntas eram mais surrealistas e mais fáceis: “por que casa não tem perna?”, “por que os tratores não são rosa?” “o que leva este senhor na mochila?”, “para onde vai esta senhora?”. Eu inventava a resposta e esperávamos a próxima.

Depois vieram as perguntas sobre a morte. O que acontece? Para onde foi o vovô? Sempre com muita curiosidade, nada de medo. Porque com quatro anos, a criança não tem nenhuma consciência de que a morte é igual para todos. Junto com a morte, veio o corpo e os bebês. Como nascem? Por onde saem? Por que homens não têm bebês?

Demos de presente um livro sobre o corpo humano. Ela adorou e as perguntas diminuíram.

Até começar a etapa das perguntas científicas: o universo tem fim? Se tem, podemos ir até lá? Se tem, o que tem do outro lado? Podemos ir no sol? Como o sol nasceu? O que é um buraco negro?

Um passeio pelo parque sai caro. Volto para a casa com uma enorme dor de cabeça. E quando já não sei mais o que falar, porque não sei mesmo, respondo:

– Liga para o primo Diego.

O primo Diego está fazendo doutorado em física. E na maior paciência, responde:

– Não se sabe se o universo é infinito ou nao, porque só se pode ver uma parte. Como não podemos ver o resto, não se pode afirmar com certeza.

Nem os cientistas, nem o pai, nem a mãe sabem tudo. Foi uma das suas grandes descobertas.

Mas ela não desiste. Quem foi a primeira pessoa que nasceu? E a primeira árvore? O que tem no centro da Terra?

Para cada pergunta, um novo mundo de respostas. E para cada nova descoberta, novas perguntas no horizonte. Até que veio o:

– Mamá, e a vida, o que é?

Fiquei com vontade de responder como Gonzaguinha: é bonita, é bonita, é bonita. Mas achei que era pouco e, neste estranho mundo que estamos, nem que era muito certo. Pensei na Amazônia queimando, no ar envenenado, no calor infernal deste verão europeu, clara consequência desta destruição. Pensei nos novos navios negreiros, trazendo imigrantes que ninguém quer, que governos preferem deixar no mar. Pensei em tudo que, esta curiosa menina de sete anos, ainda não precisa saber sobre a vida.

Aí preferi as palavras de outros poetas. Lembrei do Caetano, que escreveu para seu amigo Torquato que “a matéria vida era tão fina”. Tao breve. Tão única. Lembrei de Joao Cabral, que contou como seu Severino, imigrante, que na possibilidade de pular fora de ponte e da vida, escolheu a última. Que ela, a vida, era “vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica em que ela, teimosamente, se fabrica”. Insiste. Resiste. Vidas severinas.

– A vida é isto Carol. Este parque aqui, em que estamos andando de patins, nesta tarde bonita. Tudo que está aqui é vida. O rio. As formigas. O mosquito. As flores. Vida é tudo que nós temos.

– Mamá, tenho mais uma pergunta.

– Carol, socorro! Estou com dor de cabeça. Vai patinar!

– Só uma!!

– Tá bom…

– Posso tomar sorvete de sobremesa?

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