Sorte dos que voam

Não sei dizer se ele nasceu exatamente naquele domingo, mas foi naquela manhã que notei a sua presença. Insone, tentava acordar minhas ideias armada de um café forte, me dava ao direito de meia hora em silêncio. E em silêncio ouvi novos sons vindo do terraço, piados frágeis, mensagens que eu metaforicamente desejava. Um milagre, um sinal que se materializou em vida nova.

É claro que racionalmente, quando um casal de Beija-Flor decide construir um ninho na sua sacada, a mensagem não é exatamente fantástica. Eles provavelmente o fizeram porque não encontraram árvores mais seguras na urbe que se desenvolve de modo disforme, se amontoa em edifícios e estradas replicadas sob ruas que se perdem do céu. A realidade bangkokiana desafia os organismos a provarem sua capacidade de adaptação. Entretanto, por uma força inexplicável, ainda possui uma biodiversidade considerável. Aqui há sempre a hipótese de encontrar uma cobra na esquina de casa, um pavão atravessando a rua, ou um casal de pássaros construindo um ninho na janela do 6º andar.

Mas tínhamos também as nossas razões para nos comovermos. Não era o primeiro ninho a construírem em nossos pequenos arbustos, mas foi o primeiro casal de pássaros que sentiu em nossa casa um espaço de harmonia e confiança para chocar seu ovo, até que um dia se rompesse em vida. Um projeto longo, que havia começado há mais de um mês, quando nos acostumamos às visitas frequentes da dupla, carregando folhas, gravetos e fios. E por mais que tenhamos visto todos os episódios, de todas as temporadas de Planeta Terra, África, Planeta Azul e muitos outros documentários do nosso amado David Attenborough, nunca poderíamos supor o tempo e a língua dos pássaros. Sabíamos que a língua existia e nos tornamos expectadores dessas vidas fascinantes. Conhecemos o filhote ainda de olhos fechados. Acompanhamos os chamados aflitos de fome e de medo, à espera da mãe que voltava carregando minhocas, ou algo parecido no bico. Notamos um canto mais forte e ritmado a cada dia, que não apenas chamava por ela, mas aprendia a dar boas vindas e a se despedir do sol. E descobrimos que à noitinha também entoam uma espécie de “piado para ninar”.

Apesar de tanta felicidade, o final de semana seguinte chegou, era feriado e já tínhamos uma viagem marcada. Molhamos as plantas, nos despedimos da casa quando o sol ainda dormia e partimos para três lindos dias de descompressão da cidade. Quando voltamos, já estava escuro, no dia seguinte acordamos juntos, bem na hora em que o sol começava a despontar no horizonte. Bento já tomava seu cereal e eu me aproximei do terraço. Portas de vidros ainda fechadas, o formato do ninho parecia mais alongado. No buraco em que sempre avistávamos uma figura esticando o pescoço para tentar ver o mundo, havia um pássaro mais robusto que, curioso, conseguia colocar a cabeça para fora de sua casa. Assim que me viu, se assustou, deu seu pio estridente e pulou desengonçado do ninho. Bateu asas para a beirada do vaso, ensaiou um voo para o alto da árvore lateral, voou contra o vidro da nossa porta, caiu no chão e ali ficou ofegante, piando sem parar.

Bento e eu estávamos surpreendidos, sem saber ao certo o que fazer. Seria melhor recolocá-lo no ninho ou deixá-lo livre? Enquanto pensávamos, ele voou, mas voou muito alto. Foi para a sacada da lavanderia e de lá desapareceu. Para o céu, para a teia confusa de prédios. Estariam as asas preparadas para aquela experiência? Seria engolido pela cidade, perdido, sozinho, desamparado? E enquanto me dava conta do seu desamparo, a mãe voltou e viu o ninho vazio. Assustada, ela piava incessantemente. Parecia desconsolada. Voava em volta do ninho, voltava para olhar o buraco, parecia incrédula. Poderia jurar que ouvi o pranto de um pássaro. A tristeza cobriu a nossa casa como um manto abafado.

Saímos da sala sem norte, tentando nos preparar para o que ainda haveríamos de viver naquele dia. Para o Bento, que está terminando a escola primária, era dia de fotos da turma. Tínhamos que chegar cedo e focados. Ele estava feliz de se saber tão grande. mas confuso de abandonar aqueles muros protegidos. Eu, para além destes sentimentos, receava o universo da escola dos grandes, mas naquele momento me sentia sobretudo pesarosa: o pássaro mal saía da casca e tinha ido pro mundo. De quanto tempo um pássaro precisa para sair voando? Teria ele terminado todas as suas aulas na “escola de voo”? Como poderia conviver com o peso de ter espantado aquele filhote pro mundo, sem saber se estava pronto?

Já estava de saída, atrasada para a escola, quando Vicente foi me buscar no elevador: “mamãe eles estão aqui!”. A mãe beija-flor subia e descia as folhas das árvores um pouco para cima, um pouco para baixo, para a beirada do vaso, para o vaso ao lado. Piava e piava rapidamente. Parecia brava. O passarinho pequeno copiava a mãe como um soldado. Ele estava vivo. Eles voltaram. E nós podíamos sair muito mais aliviados para aquele primeiro dia de despedida da escola primária.

Bento, como eu, detesta sessão de fotos e sofre com despedidas. Não aguentou até o fim e me pediu: “posso sair dessa sessão chatíssima?”. Se mandou para a biblioteca, seu canto preferido na escola e pegou um livro sobre pássaros da região. Enquanto lia, contava à bibliotecária que escolheu a sua próxima escola por conta da biblioteca “ainda melhor do que a sua”. Bento não imaginou que poderia ofendê-la, só queria explicar que estava feliz. Que para onde quer que fosse, teria onde se refugiar. E ela, que o recebe diariamente nos intervalos, e sabe que ele é um menino bastante peculiar, sorriu feliz.

No fim do dia os pássaros já não cantaram para o sol na nossa sacada. Segundo os livros, o filhote sai definitivamente do ninho quinze dias depois de sair da casca. Passa duas semanas com a mãe em treinamento pela vida e depois cada um segue seu rumo.  Aquele era o décimo segundo dia desde que havíamos ouvido o primeiro piar. Não saberemos nunca se aquele era o tempo certo para que voassem juntos para o grande mundo. Mas hei de lembrar da mensagem que me trouxeram desde o primeiro dia. A vida acontece o tempo todo e temos que confiar que estamos prontos quando para ela voamos.

Comentários

  1. Que lindo texto filha! Que linda a sua analogia do beija flor indo embora para sua independência e do nosso Bento estando pronto para a sua próxima etapa da vida!Que os dois sejam felizes!

  2. Bia, querida, que texto mais cheio de sensibilidade e verdade… Preciso te contar uma coisa: a cada vez que te leio, penso em como eu devia ter estado mais perto de você na infância e juventude. Podíamos ter papeado mais, compartilhado mais… Mas fico feliz em reconectar aqui nesse mundo de telas, compartilhar jornadas, refletir e aprender junto sobre elas. Sintonia boa.
    Pena que vamos nos desencontrar agora em julho. Mas da próxima vez que vierem ao Brasil, venham conhecer nossos beija-flores (e tucanos, maritacas…). Tem céu estrelado, silêncio de roça, e uma fogueirinha no jardim sempre pronta pros bons papos e as boas músicas.
    Ah, pensei em te recomendar um livro que traz uma ideia super interessante chamada “deficit de natureza”. Talvez você já conheça. O autor é Richard Louv e o título, “Last Child in the Woods”. Lindos voos por aí!

  3. Adorei o texto Bia. Por aqui, em terras italianas, também estou me preparando para a minha pequena ganhar o mundo, em setembro ela vai para o Liceu e para surpresa de todos nós, escolheu o científico argumentando do alto dos seus 14 anos que nada lhe dá mais tranquilidade que o resultado perfeito das contas de matemática … 😱 percebemos que ela está voando com suas próprias asas, percepções e opiniões com isso desenhando seu futuro. Pouco a pouco vou me dando conta de que a casa logo logo ficará grande e que muito em breve seremos novamente 2, eu e ele, em nossa doce rotina de casal … o filho mais velho tbm está se preparando e rápido para alçar voos mais altos… e a casa q a gente escolheu com tanto detalhe para acomodar todos logo será grande para acomodar apenas uma rotina, doce rotina, de duas pessoas que se amam, construíram uma família e logo serão 2 novamente ❤️❤️

  4. Seus textos sao sempre incríveis Bia. Leio todos com um enorme prazer. Como uma telespectadora distante que se delicia com sua poesia, com sua delicadeza. Sua visão da vida cotidiana sempre me encanta. Mas esse texto me tirou do lugar de telespectadora distante e me colocou dentro da história. Vivo momento parecido…numa fase mais “adiantada” com meu adolescente de quase 16. Quanto tempo é necessário pra estar pronto pra voar? Só o tempo nos responderá, não é mesmo?! Uau…. que texto! Obrigada mil vezes❤️

  5. Que lindo, Bia!
    Você captou bem a mensagem da ave mas nós humanos ainda tememos que os nossos sofram qualquer decepção. Difícil lidar com o crescimento dos nossos pequenos. Beijão

  6. Bia, amiga sensível e querida … Seus textos me fazem mergulhar nesse universo… Que saudades de vc, de abraçar, conversar olhando nos olhos e dar muitas risadas !
    Que o Bento voe … Voe alto !
    Bjs minha querida amiga

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