Identidade

Semana passada, uma colega de classe do Hugo disse para ele, e para outro amigo de pais ucranianos e outro, filho de marroquinos, que eles não eram espanhóis de verdade. Que não passavam de imigrantes. Aquilo me doeu na alma. Minha primeira reação foi pensar em ir na escola, pedir reunião, organizar alguma atividade contra o racismo, a xenofobia, etc. Mas achei melhor que o primeiro era esfriar a cabeça. Porque o mais triste é que quem disse isto aos três companheiros de classe foi uma menina cigana. Na Espanha, não existe coletivo que sofra mais preconceitos que os ciganos. Aos nove anos, essa menina já deve ter ouvido vários absurdos e sabe perfeitamente o que é ser marginal. Ser o diferente. O fora da norma. Já deve ter ouvido que ciganos são ladrões. Que não tomam banho. Que não gostam de estudar. O mundo desta menina não deve ser fácil. De aí a descontar em que tem também algo de diferente, é até esperado. Então, decidimos que o melhor era dizer para o Hugo: entra por um ouvido, sai pelo outro. Não dê importância. Não é verdade e não podemos sofrer por mentiras.

Mas naquela mesma semana, outro fato trouxe outra vez a palavra racismo para nossa casa. Durante o treino de rugby, um menino mais velho disse para o Hugo que não entendia o que ele falava, por causa do seu sotaque de português. E eu pensei: “quem dera! ”. Porque o menino se esforça, mas fala um português carregadíssimo no sotaque espanhol. Isto quando fala! E novamente, lá fui eu esfriar a cabeça. Um menino de 11 anos implica. Perturba. E creio que encontraria algo para incomodar se ele fosse, sei lá, gordo, usasse óculos, ou fosse magro demais, ou sei lá mais o quê, que os meninos usam para encher o saco do amigo. No caso, escolheu o fato do Hugo ter mãe brasileira. O que, provavelmente, doeu mais na mãe que no filho.

A questão é saber quando é bullying, quando é racismo, quando é para ignorar, quando é para ir lá reclamar, quando é para ir falar com os pais da outra criança, quando é para a criança se defender sozinha. Para nossa e sua sorte, Hugo não é de levar desaforo para casa. Não é tímido, é forte e sabe se defender. Ele não costuma começar, mas se recebe, devolve. E, cá para nós, acho isto ótimo. Minha preocupação seria maior se ele se encolhesse, quando sofresse algum tipo de agressão na escola ou em qualquer lugar. Ou que ele fosse o agressor, que se metesse com outros. Mas não. Nunca recebemos nenhum tipo de queixa sobre seu comportamento. É um menino querido, que brinca com quase todos. Com amigos fiéis, que no recreio sabem se defender e, melhor ainda, defendem os irmãos menores.

O que fizemos foi aproveitar a deixa e conversar em casa sobre o que é preconceito e racismo. Sobre o que sofrem as crianças ciganas e também os meninos e meninas muçulmanos principalmente. Pré-conceito. Julgar sem conhecer. Ter opiniões negativas de forma generalizada, quando ele sabe perfeitamente que não são verdade. Achei que, no fundo, experimentar estar do outro lado, poder ter vantagens. O valor da empatia, do sentir na pele, de reconhecer no outro o seu desconforto.

Mesmo assim, tivemos que reafirmar que tanto Hugo, quanto Carol, nasceram no hospital Miguel Servet de Zaragoza. Filhos de pai espanhol e mãe brasileira com nacionalidade espanhola. Netos de espanhóis, sobrinhos de espanhóis, primos de espanhóis. Portanto, espanhóis. E melhor ainda: com a sorte de também serem um pouco brasileiros. Ter dois países, dois idiomas, duas culinárias, duas culturas. Tanta coisa boa, que como pode isto ser algo para implicar?

Então, vamos lá mais uma vez. Respirar fundo. Usar a educação para proteger. Quanto mais informação tenham, mais poderão dizer para o colega que não é bem assim. E, se for, e daí?

Comentários

  1. muito bom! retrata um momento que, infelizmente, o mundo está vivendo.
    Saber lidar com a situação é usar de sabedoria. Parabéns!

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