O mistério dos sapatos

– Rosane, quanto tempo duram os tênis do Hugo? – perguntou uma amiga brasileira, que trocou o Recife por Barcelona há menos de um ano.

– Pouco – respondi – mais ou menos uns três meses. Às vezes quatro, se coincide com o verao. Costumo comprar de dois em dois para que durem mais. Por que?

– Caramba! Que péssimos são os tênis daqui! – reclamou indignada – comprei um para o meu filho mais velho (9 anos) em setembro e, em dezembro, já tive que comprar outro. No Brasil, até que o pé não crescia, eu não comprava. O tênis ficava novinho. Até o mais novo herdava.

– Vem cá, no Brasil, os meninos iam como para a escola?

– De carro.

– E aqui?

– Caminhando.

– No Brasil, eles brincavam de correr no pátio da escola (construtivista, privada e cara)?

– Não. O pátio é minúsculo. Não tinha espaço. E quando chovia, eles nem podiam sair.

– E aqui?

– A daqui (pública e gratuita) tem um pátio enorme. Tem quadra. Agora eles até passaram a jogar futebol. Jogam todos os dias.

– No Brasil, o que vocês faziam no fim de semana?

– Ah… o normal, cinema, casa de alguém, shopping, praia…

– Mas na praia, ninguém vai de tênis, né? E aqui?

– Vamos para os parques, algum passeio pela cidade.

– De transporte público?

– Sempre.

– Acho que está resolvido o mistério dos sapatos.

– E…acho que sim.

– Conselho: não compre tênis caro. Dura o mesmo tempo que o barato. A vida de criança solta na rua tem seu preço. Mas daqui a pouco é verão e eles vão poder andar de chinelo.

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