Do homem ou de Deus.

Vivemos na Tailândia, famosa por suas belas praias, ilhas paradisíacas, natureza abundante e povo gentil. E sua fama não veio à toa, os governantes souberam aproveitar as verdadeiras riquezas locais para fazer deste lugar um destino desejado, além de um polo importante de desenvolvimento agrícola e industrial. Bangkok é hoje a cidade que recebe mais visitantes no mundo, à frente de Londres e Paris. Mas Bangkok é também a mais nova metrópole a entrar no ranking das mais poluídas do planeta (ao menos por dois dias neste ano ficamos entre as 10).

Coisa recente, já que há apenas um ano vimos nascer a Super Lua azul sob um céu translúcido, entre as estátuas douradas de Garuda que esculpem o topo do templo mais famoso de Bangkok. Ironia do destino, ou não, exatamente no mesmo dia, encerrando um janeiro de 2019, as autoridades locais se viram obrigadas a encerrar as atividades de todas as escolas.

As crianças ficaram a quinta e a sexta em casa e passamos o final de semana de molho, buscando purificadores de ar na internet (que custam os olhos da cara), assistindo a documentários diversos do David Attenborough e a um outro muito especial, que aqui tem o título de Wild Colombia. O tema é a beleza natural deslumbrante dos nossos vizinhos, mas também a contaminação do ar e das águas, logo aí, do lado do nosso Brasil.

Mas não é de hoje que o mundo sofre com a poluição de ar. Ainda outro dia, a série The Crown, no Netflix, relembrou um episódio que aconteceu em Londres, nos anos 50. A cidade foi invadida por uma fumaça tóxica que, por conta de uma mudança de vento, ficou parada sobre Londres, resultando na morte de 3.500 a 4.000 pessoas*. Não se sabe o quanto os diálogos da série são fictícios, mas fica subentendido que Churchill, por conta de uma catástrofe nos EUA em 1948, já havia recebido o alerta. Foi recomendado a ele que instalasse zonas de ar limpo pela capital inglesa, diminuindo o ritmo da indústria e a queima de carvão pela cidade. Mas parece que o primeiro-ministro não levou o alerta a sério, estava mais preocupado em transmitir a ideia de que tinham uma economia sólida. Quando a fumaça chegou, alegou que a tragédia, que durou cinco tenebrosos dias, era “um ato de Deus” (a justificativa divina, que também dá título ao episódio).

Hoje, no inverno tailandês, o calor ainda é intenso, com alguma chance de brisas frescas, mas não há chuva. Acontece que agora ficamos à mercê da vontade do vento. Se vier do sul, chega limpo. Se vier do norte, ficamos cobertos da fumaça tóxica. Se não vier, ficamos com a fumaça estacionada, e ainda sob o calor e a pressão do efeito estufa. Seria este vento a revelação do sopro divino? Ainda não sei como a filosofia local anda encarando essa mudança climática e atmosférica, mas imagino que os nativos da terra, os mais supersticiosos que já conheci, devem entender que da forma como estamos arrasando a nossa biodiversidade, coisa boa não havemos de colher. O alerta é claro, a água bateu na cintura e não há reza que resolva. Somos nós que temos que mudar o rumo das coisas.

Seguimos desejando que o mundo tenha criança correndo livre atrás da bola e que à noite possamos nos deitar debaixo do céu a procurar estrelas cadentes, ou ouvir histórias sobre os povos que aprenderam a adivinhar o tempo da terra, observando os corpos celestiais. Mas é fundamental falarmos também deste céu que por aqui passou e se instalou por alguns dias. Mesmo que seja para termos a certeza daquilo que precisamos evitar: uma vida onde tudo se compra, até o ar que precisamos para respirar.

A que vamos nos dedicar para nos salvarmos, para reencontrarmos um pedaço de céu?  Uma vida sem céu e sem ar puro não é vida. É uma espécie de coma, onde corpos sobrevivem se ligados a aparelhos.

Fico pensando então neste nosso Brasil. Aí ainda nos resta o verde e a maior biodiversidade do planeta. E também o céu, ora cinza-chuva, ora azul-anil. E sei que parece muito pouco, diante de tanta tristeza que transforma a nossa terra em lama, caos e nos deixa em carne viva. Mas sob o olhar de quem veio de dentro, mas sabe bem como é o mundo aqui fora, isso ainda é bastante coisa. 

Peço desculpas pelo tema denso, incômodo e longo, mas é este o céu que andou passando por aqui. Espero que ele não volte tão cedo. Mas, sobretudo, que possamos evitar que ele chegue por aí.


*estudos científicos recentes atribuem 12 mil mortes decorrentes dos dias da fumaça tóxica.


“Ouçam isto, homens e mulheres jovens em todo lugar, e proclamem ao longe. Sua é a terra e a plenitude dela. Seja gentil, mas seja forte. Você é mais neucessário agora do que nunca. Pegue o manto da mudança. Esta é a sua hora.” Citação de Sir Winston Churchill, no mesmo episódio “um ato de Deus”, da série The Crown.

Comentários

  1. Como sempre perfeito seu texto filha querida!
    Infelizmente triste e tão real! Pena que muitos não acreditem nisso e que principalmente governantes queiram dizer que é coisa de quem não sabe o que diz!
    O exemplo de Churchill e o carvão há tanto tempo atrás, é uma gota nesse universo de tantos absurdos que estamos vendo, presenciando, até quando esse universo e os que aqui vivem vão aguentar?
    Que os dias sejam melhores!

  2. SEu texto é tão lúcido que me pergunto o que leva a maioria dos governantes a ignorar essa realidade que está aí a olhos vistos?
    MAs ainda acho que a população também ainda não tem ou não quer ter a dimensão dessa catástrofe que se desenha.
    Cada um tão preso ao seu umbigo que não consegue ou não quer abrir a mente para o que poderá ser de nossos descendentes.
    Às vezes é preciso escrever denso e triste. FEz muito bem de colocar isso no blog de uma maneira que você faz sempre tão bem.

  3. Lindo texto Bia. Atual e tristemente verdadeiro. Espero poder viver para conhecer governantes que pensem diferente dos atuais e que consigam reverter todo estrago feito até agora, nesse nosso sofrido planeta.

  4. Como sempre, leitura gostava mm que de tema tão denso. A mudança só ocorrerá quando todos formos protagonistas, temos que cobrar ações governamentais mas precisamos botar a mão na massa: consumir menos, reciclar, reutizar, não desperdiçar, etc, etc

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