Armas: aqui e lá

Este é um blog que conversa sobre a vivência da maternidade dentro do mundo atual. Algumas de nós vivemos em outros países. No meu caso, vivo em Zaragoza, Espanha, e tenho dois filhos, um de oito e outra de seis anos. Perdão se meus problemas parecem pequenos, se comparados com os do Brasil atual. Mas gostaria de mostrar como os problemas lá de longe, no nosso país, nos afetam também e como a mesma questão é tratada no país em que vivemos.

Pois isto. O assunto do momento chegou na nossa casa. E, imagino, na casa de todos os pais brasileiros que moram fora e querem levar os filhos para passar férias no Brasil. Nosso país, que nunca brilhou pela segurança dos seus cidadãos, vai ficar previsivelmente mais violento agora que o atual presidente liberou por decreto que qualquer brasileiro, maior de idade, pode ter até quatro armas em casa. A questão é: se nunca viajamos totalmente tranquilos com as crianças ao Brasil, agora, com a liberalização das armas, como é que fica? Vamos levar nossas crianças para um faroeste? Terei medo que duas pessoas discutam no trânsito e que um saque uma arma? Terei mais medo do que já tenho normalmente? Pois foram todas estas perguntas que me fiz esta semana e que continuo fazendo. E ao mesmo tempo, sentindo-me egoísta, pois este são meus medos de “férias”, imagino como está a cabeça de todas as outras mães que convivem com este medo no dia a dia.

E na Espanha como é? Bem, aqui ter licença para posse de arma de fogo é bem difícil. Existem cinco tipos de licença diferentes: B para revólveres e pistolas; C para quem trabalha como segurança; D para caça de animais grandes; E para caça de animais pequenos e F para atletas de tiro. Em todas tem que comprovar seus antecedentes penais, se não tem nenhuma denúncia por violência de gênero, tem que fazer prova escrita e psicotécnico. Para todas têm que apresentar documentação que comprovem o uso da arma.

A licença B equivaleria ao que foi liberado no Brasil. A nova lei brasileira diz que a pessoa tem que alegar a necessidade da arma como, por exemplo, viver em um local com altos índices de violência. Isto afinal é bastante fácil, basta mostrar que mora perto de uma favela. Na Espanha não. Aqui não se pode alegar que se necessita de uma arma para proteger bens materiais. Quer dizer, não é motivo para uma pessoa ter porte de arma o fato dela querer se proteger de um possível ladrão. A pessoa tem que comprovar que sofre ameaças sérias, com por exemplo, ser vítima de ameaças terroristas. Como quando o ETA mandava cartas cobrando pedágio aos comerciantes do País Basco.  Sem uma comprovação, não se dá a autorização. O que faz que a licença B seja a mais difícil de conseguir. A lei espanhola diz que a vida humana é mais importante que qualquer posse de bem material. Por isto, nunca se deve proteger um bem material com arma de fogo.

Viver em um país com esta lei me tranquiliza. Em Zaragoza, onde vivemos, cidade com 700 mil habitantes, no ano passado, não aconteceu nenhum crime com este tipo de armas. Nenhum. Também nenhuma criança pegou a arma do pai escondido e matou o irmão ou o amiguinho. Aconteceram outros crimes? Sim. Assaltos? Sim. Teve bala perdida? Não.

Quando leio que, nos últimos dez anos, quase 7 mil crianças morreram no Brasil vítimas de armas de fogo fico em pânico. Se era assim antes da lei ficar mais frouxa, como vai ser agora? Medo de quem vive fora. Tristeza e preocupação pela família e pelos amigos que estão dentro. Queremos paz, apenas isto. Arma em casa nunca será o caminho.

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