O problema YouTube

A mãe de um companheiro de rugby do Hugo chegou no treino segurando uma caixa de ferro.
– Para que isto? – perguntei.
– Mandei fazer – ela conta – aqui vamos colocar todos os aparelhos eletrônicos na hora de dormir. Fecharei com cadeado. É o único modo dos meninos não levantarem durante a noite e irem para o YouTube.
Encontrei uma ex-aluna no caminho do trabalho. Era cedo e ela estava carregando um monte de fios e um rooter na mao.
– Levando para o conserto?
– Não. Levo a wifi para o trabalho. É o único jeito do meu filho fazer os deveres quando chegar da escola – explica ela, mãe de um adolescente de 13.
Outra amiga conta que a filha não tinha tablet, até que, no aniversário de sete anos, os amigos fizeram uma vaquinha e deram uma de presente. Um super presente, todos felizes, mas para os pais às vezes se transforma em um problema. Quando vão limitar o uso, colocar uma norma, a menina, normalmente sempre doce, fica em um mau humor insuportável. Coisa que o pai chama “humor YouTube”.
Não sei se estou chegando tarde a esta discussão, mas é que o problema nos surgiu neste curso escolar. Nosso filho Hugo também fica num mau humor horrível, quando lhe tiramos o YouTube. Ele, que nunca tinha usado esta plataforma, descobriu sua existência nas últimas férias no Brasil. Antes a tablet era para joguinhos, agora é para ver outros jogarem ao Minecraft ou ao Fortnite, o jogo da moda. E isto que ele não tem nenhum dos dois jogos. Também descobriu os “unboxing”, ver como outra criança abre diariamente um brinquedo novo.
Quando estava grávida e ficava sonhando sobre como educaria meus filhos, sobre o tempo limitado que lhe deixaria ver a televisão, nunca poderia imaginar que encontraria um inimigo muito mais poderoso que a antiquada tv. O YouTube é onipresente e, se não tivermos cuidado, quase onisciente. É extremamente viciante, sem controle de qualidade, sem limite. Todo dia é dia, toda hora é hora, como cantava a inocente música da minha época de Vila Sésamo.
Claro que colocamos filtros. Nossa internet tem controle parental. Também temos um programa em que podemos ver, desde nosso computador, todos os vídeos que o menino assistiu. Antes que alguém coloque a mão na cabeça, saiba que, na nossa casa, criança de oito anos ainda não tem direito à privacidade. Ele já conquistará este direito. Controlamos e sabemos o que faz, mas isto não impede as batalhas diárias sobre quando usar a plataforma. Como fazer uma criança achar interessante a leitura, quando outra criança está na internet estreando brinquedos diariamente? A luta é muito desigual.
Junte-se a isto, que nós também temos outros deveres e responsabilidades. Trabalho, a casa, os estresses diários. Às vezes é muito fácil simplesmente deixar a criança diante da internet, para que podamos relaxar e conversar com uma amiga, por exemplo.
Cada vez mais me dou conta que a tecnologia se transformou em um problema em cada casa. Caixas de ferro, levar o rooter para o trabalho, esconder a tablet no alto do armário, são apenas armas de pais preocupados com um mundo desconhecido para nós. Conheço um exemplo extremo em que os pais cancelaram a internet de casa. O que foi um erro grave, pois o adolescente começou a jogar fora e eles (os pais) perderam ainda mais o controle sobre o que o filho estava fazendo.
Óbvio que não podemos negar aos nossos filhos o acesso à tecnologia. Também temos todo o lado positivo quanto à informação e diversão. Mas o que não podemos permitir é o uso sem controle, nem de tempo, nem de qualidade. Mas estamos sozinhos nesta luta e a possibilidade de perdê-la é grande. A internet é livre, que bom, viva a tecnologia. Mas nós, pais, fomos deixados sozinhos para lutar pela educação e socialização dos nossos filhos. E, sinceramente, não está sendo fácil.

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