Depois da tempestade

Tem sido meses difíceis. Foi preciso me afastar um pouco, dar um tempo, colocar a cabeça no lugar para ter a coragem de escrever. Acho até que é cedo, porque “a chapa ainda está quente”, os ânimos continuam exaltados. Pensei até em escrever sobre outra coisa, sobre o próximo aniversário do filho e o drama (para a mãe, exclusivamente) sobre quem convida e quem não convida. Coisa que só preocupa a mãe preocupada, porque o filho está muito tranquilo em convidar apenas seus melhores amigos. Drama zero. Mas que bom, consegui me (pre) ocupar com outra coisa, além deste país chamado Brasil. Mas seria estranho escrever sobre isto agora. Acho que a vida vai voltar ao normal (espero), mas ainda falta. Meses estranhos, vividos primeiro com incredulidade, logo com incompreensão, passando por espanto, medo, terror e, por fim, profunda tristeza.
Viver a última campanha presidencial longe do Brasil também foi intenso. Jornais, Messenger, WhatsApp, Facebook, Instagram, tudo pegando fogo e sair da frente do computador ou do telefone era quase como renunciar ao país. Viver cada novo fake News, cada novo absurdo sem comentar ou compartilhar, um sacrilégio. Mas em algum momento tem que sair, porque tem que levar filho na escola, tem que ir trabalhar, fazer compras no supermercado e aí me encontrava com a realidade daqui. Falar com gente que não tinha a menor ideia do que estávamos vivendo. Da vida cotidiana sendo vivida sem nenhum tipo de alteração. Das pessoas falando sobre o tempo, os deveres da escola, o esporte de fim de semana, conhecer novo alunos… era quase como estar em um filme de ficção científica, em que para me transportar do Brasil para a Espanha bastava com abrir a porta de casa. O cérebro dava um nó, por estar em um lugar e o corpo, em outro.
Aí as notícias sobre o que passava em Brasil começaram a sair nos jornais e televisões espanhóis. Todos horrorizados. Conhecidos começaram a vir falar comigo. “Não entendo. Que está acontecendo? Não é possível! Como pode?” Difícil explicar o que nem a gente entende direito. Mas foi bom receber esta solidariedade dos espanhóis, que viveram uma guerra civil brutal, 40 anos de ditadura e que tem a defesa da democracia como um bem valioso. Era com conforto.
A comunidade de brasileiros que conheço também estava chocada. Mas sei que meus conhecidos são uma exceção. O candidato da extrema direita venceu as eleições em Madrid de lavada e por pouca diferença em Barcelona. Diante disto, preferi evitar o encontro com brasileiros que não conhecia. Até mesmo com os pais da nova coleguinha de classe da Carol, recém-chegados na cidade. Ainda não encontrei forças para ser mais acolhedora. Vai que… a que ponto nós chegamos…
Na esfera micro, o descarte de pessoas foi para mim uma grande novidade. Talvez o lado mais cruel das redes sociais. De repente você é amigo, fala, conversa, até troca confidências com pessoas que nunca viu pessoalmente (ou que sim, mas que faz anos que não vê), que nutriu certo carinho, que se identificou em muitos aspectos da vida. E aí descobre que esta pessoa aceita coisas que para você sao inaceitáveis. E descarta a pessoa da convivência virtual, que às vezes parecia real. Assim, super fácil. Deixar de seguir, bloquear. Todas as ferramentas usadas para que nossa bolha seja a nossa bolha. Que fácil é atualmente que pessoas entrem e saiam da nossa vida. Que relações superficiais estamos construindo? Vale à pena? Fico imaginando de quantas vidas também fui descartada com a mesma facilidade.
Quem vive fora, também sofreu com outro tipo de acusação: “você vive aí em outro país, no bem bom, e não pode opinar sobre o que nós estamos passando no Brasil”. Foi o que li e nao foi uma vez só. Parece que todos estamos aqui deitados em berços esplêndidos, bebendo e comendo do bom e do melhor, fazendo viagens incríveis, glamour e glamour e ainda vamos dizer o que é bom para o Brasil. Veja só! Que cara de pau!
Nao, quem vive fora não vive no glamour. Fico com muita preguiça só de começar a explicar. E quem vive fora sonha em voltar. Sonha em criar os filhos no mesmo lugar onde nasceu. Sonha que este país seja justo, acolhedor e que todos tenham os mesmos direitos e deveres. Sonha com que o Brasil seja de todos nós.
Agora com a cabeça e o coração mais tranquilos. Voltando, pouco a pouco, a estar os dois no mesmo fuso horário, consegui ter forças para dizer que os sonhos continuam. Aqui e em qualquer lugar. Talvez realmente tenhamos que passar por isto para descobrir quais são as relações que valem à pena, quem são nossos companheiros de jornada. Para descobrir onde está nosso limite de acolhimento e como podemos melhorar. Também aprendi que, para viver bem, preciso da realidade palatável. Não é possível separar a cabeça do corpo sem pagar um preço no viver. Mas como é complicado estar totalmente ausente, vou ter que reconstruir este equilíbrio uma vez mais. Um pé lá, mas só um pé. O resto eu preciso por aqui.

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