Um surto de saudade

Mais um texto delicioso da Isabel Clemente, nossa Mae em Rede convidada. Bel, há quase um ano vivendo em Braga, Portugal, narra como a filha menor lida com esta nossa velha e conhecida amiga: a saudade.

Quando a filha menor desistiu de um choro artificial para admitir que algo doía mais profundo dentro dela, percebi que havia uma catarse prestes a começar. Ela se pôs a enumerar tudo de que sentia falta. Falou da esfirra do Largo do Machado, do pão de queijo, do mate e das árvores do Aterro do Flamengo. Lembrou dos sabiás na varanda, do quintal, da bicicleta e de todos os brinquedos enviados para o depósito. Sentiu saudade das roupas que não lhe cabem mais, do edredon doado, da cadeira amarela. Queria reencontrar os livros das prateleiras e obviamente as amigas, as brincadeiras que inventavam, e foi me contando tudo entre lágrimas e lamentos. Em respeito, eu era silêncio. Porque a escola do Rio era melhor, porque eu a levava de bicicleta na garupa, porque ela fazia balé, porque as noites eram quentes e o ar condicionado, frio, porque havia mais tempo para brincar e menos dever de casa, porque tomávamos café da manhã naquela padaria e fazíamos compras no hortifrúti. Havia degustação e ela experimentava as sopas, lembra mamãe? Sentiu falta da tia Beth, da casa da vovó onde comia pastel e farofa. A menina tratou de trazer à tona uma infinidade de hábitos, e não esqueceu nem dos gatos abandonados que ela cismava de adotar, a despeito dos avisos no condomínio para não alimentá-los. Porque nossa casa era grande e ela tinha um quarto só dela, porque minha cama era maior e saía mais água do chuveiro. Andávamos de metrô. Tinha o brownie do Luís. Micos caminhando nos fios de luz. Banho de mangueira. Goiaba na árvore. Você não comia, aleguei, mas eu tentava derrubar com o chinelo, ela completou. Ficou tão longa a lista da saudade que as lágrimas secaram. Ela praticava o exercício de memória, decidida a pescar lembranças antes que alguma escapasse. Eu me entreguei àquele momento com uma lista paralela na minha cabeça que começava pelas pessoas que me fazem falta, retrocedia à Brasília, um tempo em que era mais fácil visitar o Rio, aos anos em que a memória de meu pai não falhava, nem a disposição de minha mãe, passava pelo piano que aqui não tenho mais, e foi mexer na infância do museu queimado onde repousava a misteriosa múmia transformada em cinzas. Mas as lembranças vêm limpas de problemas, dramas, embates. Elas resistem à destruição mais atroz. Só não sobrevivem ao descaso do coração. A memória afetiva é esse lugar sagrado onde guardamos o melhor de tudo que nos faz bem e que revirávamos juntas como quem arruma uma gaveta bagunçada. Que bom que é assim. Saudade dói e eu a quero mansa, terna, porque é necessária. Parecia-me mais seguro então me ater à paisagem e ao enquadramento de todas essas histórias cheias de sentido e emoções a partir do lugar onde aconteceram, o Rio. Então decidi ajudar a menina acrescentando um ou outro elemento à lista de tudo que amamos na cidade para nossa reconstituição mental: a Praia Vermelha, o caminho para o Pão de Açúcar, aquela rua enorme e cimento perfeito onde andávamos de scooter. E de repente havia se passado uma hora de conversa sentadas na cama, à meia luz. Com os olhos molhados, ríamos das cenas vividas, das histórias acumuladas em oito quase nove anos de vida. Você está tão grande, filha. Estão todos lá, certo, e logo iremos reencontrá-los, ao que ela assentiu com a cabeça, olhar húmido e pensativo, e nada é para sempre, eu disse. Estamos ampliando nosso coração, para caber nele mais um tanto de gente e histórias das quais nos lembraremos depois não é, e ela novamente concordou com um discreto gesto antes de uma tentativa derradeira de retomar o tom melancólico do desabafo, porque àquela altura ele tinha sido convertido em gargalhadas.
“Eu também sinto saudade de fazer compras no Princesa com você”, disse a criança, cabisbaixa, incompleta de tanto que lhe faltava.
“A gente não fazia compras lá”, respondi firme, quebrando o clima e desligando o fundo musical romântico do nosso encontro de almas com o Rio de Janeiro.
“Quando fazia eu gostava”, respondeu, num fiapo de voz.
“Era um supermercado caro e pequeno. Nunca gostei. Que história é essa!?”
“Era divertido”, insistiu, mais enfática.
“Raramente íamos lá. Você já tá inventando saudade”, disse, atrás de algum sinal de deboche.
“Não tô, é sério.”
“Tá bem, então chega de saudade por hoje.”

Comentários

  1. Saudade de ficar de fone e iPad na academia enquanto sua mãe tentava treinar nos 30min de aula que ela conseguia fazer comigo!!?? 🤣🤣🤣🤣🤣 amo seus textos!! Saudade de vcs!!

  2. Quem escolhe as saudades? Como qualifica-las? Ou era a saudade do que no se fez? Tambem tenho saudade de algo que nao tive……e assim vão nossas histórias pelo tempo.

  3. Ah meu Deus. Assim vc me quebra Bebel. Carolices maduras. Eu morro de saudades de vcs. Ontem a Irene lembrou do risotto do Edu. Aquela noite q vc chamou de chatona rs mas fora eu não ter cigarros pra mim não foi nada chata, afinal eu era visita e a Irene só ía tomar banho no hotel. E a Irene é uma só. E naquela hora eu vi a vantagem de ficar em hotel. E……..muito sinceramente: o risotto tava incrível. Bjsbjsbjs

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