Rio quando é bom

45 dias de férias no Brasil dá para muito. Principalmente quando a pessoa faz um périplo familiar afetivo pelo país afora. Então vamos lá, pouco a pouco, tentar colocar a cabeça e o coração no lugar. Começamos pelo final: Rio de Janeiro.

Quando viu assombrada as casas da Favela da Maré, Carol perguntou:
– Mamá, estas casas são velhas?
Não soube bem o que responder. Como explicar uma favela para uma menina de seis anos? Nós crescemos com tantas na nossa paisagem. São tantas. Tao normais. Esquecemos que não deveriam ser. Não este abandono. A menina realmente não estava entendendo.
Mas os choques culturais das férias no Brasil não ficaram por aí. Os meninos, cada vez mais observadores, perguntam por tudo:
– Por que o apartamento tem duas portas para entrar?
– Por que o ônibus tem roleta?
– Mamá, este menino está trabalhando?!
Mais perguntas com meias respostas atrapalhadas e envergonhadas. Mas, pelo menos, tem o choque cultural para o lado bom.
– Praia no Brasil que é bom. Tem milho!
– Ônibus no Brasil que é bom. Vende bala!
Mas talvez seu maior espanto é descobrir que a mãe tem uma vida anterior a eles. Passar na frente de um edifício e falar:
– Mamãe morava aqui.
– Sem a gente?!
– Vocês não tinham nascido.
– Ah…
– Aqui era meu trabalho.
– Você não era professora?
– Não. A mãe era fotojornalista, trabalhava em jornal.
– Então, você deve ser muito velha. Porque jornal é coisa velha.
Tive que rir. A única pessoa que eles conhecem que compra jornal diariamente é o avô espanhol. Ninguém mais faz isto. Nem mesmo eu, que amo jornal.
Foi uma mistura de surpresa e ciúme descobrir que a mãe tem uma vida ainda desconhecida para eles.
Também tive que proibir que a família visse o telejornal local. O mundo anda muito estranho na minha cidade. Mais do lembrava. Mais do que sempre fui acostumada. Bem mais do que deveríamos aceitar. Minha cidade amada, aquela que quero dar para meus filhos, vive um momento de abandono, debaixo de uma intervenção militar que só trouxe mais violência.
Mas, ainda sim, era a cidade que quero dar para eles. Então, fomos em busca daquilo que o Rio sabe dar de melhor: as árvores do Parque Lage, os doces na Confeitaria Colombo, a Praia Vermelha (que tinha até tartaruga no mar), andar de bicicleta por Copacabana, a música de Pixinguinha para Crianças no teatro do Oi Futuro (simplesmente tem que ir). Principalmente, o acolhimento de tantos amigos, que vieram, riram, brincaram e abraçaram.
Aí reencontramos com a cidade que mistura gentileza e malandragem na mesma medida. Nos motoristas de ônibus (todos), que mandam as crianças entrarem por trás para não pagar, nas pessoas que sempre oferecem seu lugar no metro para os meninos sentarem, na confiança do vendedor de coco da praia, que cobra na saída.
E quando o filho de sete anos por fim falou:
– Mamá, então, olha só…
Fiquei com a sensação que meus dois espanhoizinhos também são um pouco cariocas.

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