Viajar para contar

Por Isabel Clemente*

Foi de caso pensado que bagunçamos a vida de todo mundo para passar dois anos em Portugal atrás de um mestrado, tempo para minha escrita e outros sonhos. A aventura começou há dez meses. Àquela altura, as meninas tinham uma vaga ideia da troca proposta: menos consumo e mais viagens, mais histórias para contar. Cada um de nós quatro embarcou com suas expectativas e volta e meia conseguimos reuni-las num mesmo programa.

Em julho, diante das longas férias de verão que se anunciavam, aterrissamos na Itália para nossa primeira experiência de mochileiros em família. Três cidades, dois dias para cada. Uma correria só. Não carregávamos mochilas, mas cada um arrastou sua pequena mala da estação central até o apartamento Airbnb em Milão, nosso primeiro destino. Estava tarde e ficou ainda mais tarde graças ao fuso que nos roubou uma hora. As ruas esvaziaram, as lojas fecharam, e os restaurantes também.

“Deserto aqui, não é?”, comentei. Meu marido me devolveu aquele olhar tranquilo como se tivesse Milão na palma da mão. Pisávamos juntos na cidade pela primeira vez. Alguém reclamou fome, outro alguém aproveitou o embalo para reforçar a reclamação e eu comecei a ficar preocupada. Na bolsa, nem uma barra de cereal, nem uma garrafa d’água. Não é melhor garantir algo aqui nessa lojinha do indiano? Por falta de adesão imediata, não garanti. O trajeto ainda se estenderia e nenhuma outra loja apareceria novamente, coisa que eu não sabia. Minutos depois encontramos o endereço. Enquanto nosso anfitrião, um senhor holandês, sentou calmamente para falar com meu marido sobre a função de cada chave no pequeno apartamento como se fosse cinco da tarde, eu fazia um rápido reconhecimento do local (Onde está a cozinha das fotos? Que lustre é esse? Quem vai dormir no sofá? Tá sujo ali?), enquanto procurava “pizzaria 24 horas” no celular. Telefonei para a primeira. Fechada. Para a segunda: vamos fechar. Terceira: no delivery. Quarta: ninguém atende. A preocupação aumentou. Senti saudades da lojinha do indiano. Então interferi na conversa fora de hora atrás de uma dica: estamos com muita fome, as meninas, o senhor sabe, onde podemos comer? Lá no inconsciente alimentei a vaga esperança de receber um convite para jantar no andar de cima, onde ele mora, ou quem sabe ele trouxesse de lá um pacote de biscoitos, mas o senhor sugeriu as pizzarias para as quais eu já tinha telefonado. Enquanto o holandês sentou de novo para pensar numa ideia melhor, fiz uma pergunta retórica para as meninas (Vocês conseguiriam dormir com fome?), mas Eduardo lembrou daquele bar de rock aberto cheio de punks na porta.

“Tem comida lá?”
“Tem sim”, o imigrante confirmou.

Demoramos uma eternidade para o simpático, lento e jantado holandês terminar de nos passar as instruções quando nos atiramos à rua. Havia muitos jovens fumando e bebendo do lado de fora, quase todos tatuados, quase todos com piercing, num dress code que obviamente não atendíamos. Fomos pedindo licença até alcançarmos a porta. Por ordem de altura, a caçula seguiu à frente com sua camiseta de unicórnio “holográfico”. Pode ter sido impressão minha, mas percebi um minuto de silêncio, como se o bandido mais temido da cidade tivesse entrado no bar do xerife. Olhares se voltaram curiosos para a família em pé à porta. O barman parou de limpar o copo. A mesa animada silenciou. O casal interrompeu um beijo para nos observar. Até o AC/DC deu um tempo na caixa de som. Então a moça que já tinha bebido demais largou o copo no balcão e se virou para a menor entre nós, enquanto a vida voltava ao normal e um garçom passava apressado pra lá e pra cá como se eu estivesse de top preto e cabelos espetados, e não camisa social branca. Relaxei. Tocava Iron Maiden, ou qualquer banda de metal dos anos 80. A decoração acompanhava a proposta. O bar era legal, meio escuro, e limpo. Estava cheio. Enquanto a moça que tinha bebido demais insistia em falar italiano com Carol, que me pedia socorro com o olhar, perguntei se podíamos comer àquela hora, esperando que alguém me confirmasse se as duas menores de idade poderiam estar naquele lugar ou se eu deveria pedir take-away e fingir que não entrei.
“Claro, sentem.”
Eu não falo italiano mas passei a entender tudo intuitivamente porque ninguém mudou a língua para se comunicar conosco.
“Vocês estão brincando, né? Vamos comer aqui!?”, uma das meninas perguntou, entre o espanto e a indignação.
“Vocês viram outro lugar aberto?”
A caçula parecia desconsolada.
“A moça foi simpática contigo…”, eu disse, para amenizar, antes de tirar a foto que nos rendeu muita gargalhada depois. A expressão de Carolina foi a imagem de um momento. A menina mais velha resolveu fugir para um mundo paralelo com a ajuda do celular.
“Gente, aproveita o lugar”, o pai tentou animar, apontando para as telas. “Isso é muito antigo…”
Carol viu uma foto do Kiss na parede.
“Conheço ele!”
“Viu só? Tá em casa.”
Peguei o cardápio e me animei.
“Tem pizza, hambúrguer…”
Nas outras mesas, os jovens conversavam animadamente. Ninguém parecia se importar com a família sentada ao lado.
Quando tirou os olhos do celular, Letícia deparou com a janela de vidro atrás de mim.
“Eu só vejo fumaça e alguns cabelos em pé passando! Olha Carol!”
As duas se distraíram com a paisagem de fumaça e cabelos em pé mas a comida demorou à beça e a impaciência ameaçava se instalar.
“Precisamos jogar o jogo da gratidão porque só fizemos reclamar até agora”, propus, antes de seguir.

“Eu quero agradecer por termos encontrado este restaurante aberto.”
“Verdade. Imagina se não tivesse nem o bar do rock.”
“Quero agradecer pelo apartamento onde vamos dormir. Podia ser pior.”

Olhares de reprovação.

“Que tal a gente agradecer também por já ter uma história para contar?”
Não conseguimos ir muito longe na brincadeira. A comida chegou apetitosa com o tempero que o desespero acrescenta a uma hora daquelas. O barman de barba lenhador, braços verdes e boné chegou perto de nós, abaixou e, sério, perguntou para Carol.
“Are you rock’n roll?”
“Quê?”
“Are you rock’n roll?”
“Diz que sim, filha!”
“Yes!”
Então ele mostrou o hangloose, ela também, ele botou a língua pra fora, ela também, e ficamos amigos para sempre. Letícia vestia uma camiseta do Rock’n Rio Lisboa! Yeah!!!!! Uma dentro.
O garçom sorridente veio checar se estava tudo bem.
A moça que bebeu demais me apontou a direção certa do banheiro.
Os jovens animados na mesa ao lado às vezes nos lançavam olhares de simpatia. E quando vi as meninas gargalhando e consoladas com tanta quebra de expectativa, pensamos em ir embora, mas caiu um temporal e ficamos presos mais um pouco naquele inesperado lugar. O povo do lado de fora se amontoou numa improvisada marquise, outro povo entrou e ocupou as mesas até então vazias. O barman correu para pegar chuva na rua, escorregou e caiu mas não perdeu o bom humor. Definitivamente, não era o que eu imaginava para o primeiro jantar na Itália.

Depois de Milão, tivemos ainda Veneza e Florença, onde conhecemos respectivamente um albergue incrível fora da ilha (para fortalecer a experiência de “mochileiros”) e um apartamento oitocentista vecchio como o coração histórico da cidade, além das atrações de praxe. Tomamos sorvete todos os dias e Letícia concluiu que, para trabalhar numa sorveteria na Itália, o pre-requisito é simpatia. Nossas melhores amigas italianas estão nesses estabelecimentos onde ganhamos água e chocolates de brinde. Também nos arrependemos por não ter trazido duas garrafas daquele vinho maravilhoso que tomamos no restaurante com vista para o…como era mesmo o nome daquela marca do rio? Arno!

Em Veneza, encontramos família e isso valeu cada pedaço de pizza. Que alegria isso de ter primos para conversar e jantar com notícias fresquinhas do documento do bisavô, que saiu de Paola rumo ao Brasil e construiu lá parte da história que agora faz parte de mim.  Em Veneza, também houve alguma discussão porque tinha menina desconsolada por não passear de gôndola, atividade cara demais para nosso bolso. E tudo isso ensejou uma conversa sobre a vida sentados à beira do canal, enquanto observávamos um pássaro mergulhar atrás de peixes para nunca mais voltar.
“Esse bicho não respira?”
“Tô preocupada.”
“Terá se afogado?”
“Ali ele, subiu!”
“Mergulhou de novo!”
“Vamos cronometrar?”
“Gente, já tem cinco minutos.”
“Quanto tempo um biguá fica sem respirar?”
“Vou procurar no Google.”
“Mas quem disse que isso é um biguá?”
“Procure pássaros italianos que mergulham no canal.”
“Mergulhão…mergulhone?”
“Seu italiano tá cada vez melhor…”

“Imagina se eu ficasse mais tempo aqui?”
“Esses barcos grandes podem atropelar ele!”
“Melhor irmos embora, tá ficando tarde e não quero testemunhar acidentes…”
“Espera mais um pouco…cadê ele?”
“Avisamos alguém?”
“A polícia ou um salva-vidas?”
“Fica assim não. Ele deve ter saído escondido porque não gosta de ser observado.”
“Olha um pelicano!”
“Já disse que é gaivota.”

“Quero chamar de pelicano.”
“Gente, vamos tomar um sorvete?”

E assim conseguimos sair de lá, o marido decidido a aprender italiano, eu impregnada de moda nas ideias, as meninas com mais uma experiência de escambo vital – menos coisas, mais emoções – e todos sabendo de cor e salteado agradecer pela experiência: grazie mille!

Nota da autora: O bar do rock, a conversa à beira do canal, os sorvetes e as gargalhadas aparecem, não necessariamente nesta ordem, quando elas são questionadas a respeito da viagem à Itália.

* jornalista e escritora, autora de “A pior mãe do mundo: uma biografia não autorizada de todos nós (5W)”, mora em Portugal com o marido e duas filhas de 12 e 9 anos.

Comentários

Comentar