O exercício nada solitário da amamentação

Na Semana Nacional pelo Aleitamento Materno, convidamos algumas mães amigas da nossa rede, para contar suas experiências em nossa roda. Neste texto, o depoimento de Carla Marques Uller, mãe de Tomás.

Para mim, o aleitamento materno é como o parto natural: uma boa dose de vontade e insistência, e outra de sorteio da natureza. Infelizmente a natureza esqueceu de me mandar uma contraçãozinha que fosse após 41 semanas de espera, mas fui sorteada para o aleitamento. Não sabia nada de amamentação e me apoiei na sabedoria das enfermeiras. Fiquei na maternidade por dois dias sugando tudo o que elas podiam ensinar. Eu e Tomás aprendemos em tempo recorde e saímos de lá bem seguros de que daria certo.

Tomás nasceu grande (3.9kgs) e ganhou mais um bom peso em apenas nove dias, não tendo nenhuma indicação de que precisaria de complemento. Ainda assim, as sugestões de fórmula surgiam o tempo todo: quando chorava muito; quando dormia pouco; quando me viam exausta etc. Ouvi também que meu leite devia ser fraco (pouco gorduroso), porque minha dieta é muito light e por isso não sustentava o bebê. A fórmula não é veneno e com certeza salva vidas, apoiando as mulheres que, por razões diversas ou graves, não foram beneficiadas pelo sorteio. Mas a fórmula é um negócio muito sedutor para a mãe que, como meu, pode perfeitamente amamentar, mas tem de abrir mão da individualidade com uma rígida rotina de mamadas quase sequenciais, de até uma em uma hora no primeiro mês.

A fórmula demora mais a ser consumida pelo organismo da criança, faz com que ela durma mais tempo que leite materno e pode ser dada por qualquer pessoa (pai, avó, babá). Por isso mesmo, ignorei cada oferta que recebi, por mais cansada que estivesse, acordando mais de cinco vezes por noite. A decisão precisava ser por ele, desde que fosse cansativo porém suportável para mim, claro. Mesmo as mulheres que querem e que podem amamentar precisam gastar sua escassa energia para rechaçar a mamadeira que, insistentemente, empurram em sua direção. E vejam bem: já não temos muita energia sobrando. 

No vigésimo dia de vida do Tomás, o que estava indo perfeitamente bem teve sua primeira provação. Ele começou a fazer mamadas curtas e em brevíssimos intervalos, seguidas de choro e irritação. Assim vivemos por uns dois ou três dias e noites. Nenhum de nós três dormiu muito mais de duas horas e meu seio já não parecia ter muito a oferecer depois de tanta sugação. Quando íamos para a noite do terceiro dia, liguei para o pediatra e expliquei o caso. Ele, que é extremamente defensor do aleitamento materno, me indicou uma fórmula para estabilizar a situação e permitir que eu mesma me recuperasse. Tomás de fato dormiu imediatamente por um bom período, o que só embalou mais angústias: o problema então era meu leite? Será que não tinha o suficiente ou então era fraco?

Por total coincidência, uma amiga que mora no Canadá me visitou no dia seguinte com seu bebê gorducho de seis meses. Juliana teve pré-eclâmpsia severa, fez um parto prematuro de emergência (com o pé quebrado!) e teve seu bebê na UTI por mais de um mês. E isso tudo em Vancouver, só na companhia do marido. Juliana me explicou como o sistema de saúde canadense leva a sério o aleitamento materno. Com aconselhamento profissional correto e sua própria força de vontade, mesmo sem o estímulo do bebê perto dela, ela conseguiu aumentar sua produção do zero até o aleitamento exclusivo do Gabriel.

Era tudo que eu precisava ouvir para não desistir tão fácil. Passei mais uma ou duas noites em claro amamentando o Tomás depois dessa conversa. Como ela me disse: há várias formas de estimular o aumento da produção (muita água, aveia, chá, ordenha etc.), mas principalmente bebê no colo. Assim fiz até que, poucos dias depois, senti subitamente meu seio vazando. Não faltava leite! Só precisei ouvir a pessoa certa na hora certa. Semanas depois, uma mulher desconhecida com um bebê no colo se aproximou de mim na rua e me contou um segredo: “Confia que só melhora”.

É verdade. Hoje, com dois meses e meio, temos uma rotina muito agradável e tranquila de alimentação no peito, tanto de dia como de noite. A rotina dos olhares, das risadas, do bafinho de leite, da alegria dele ao me ver chegando no berço de madrugada.

A amamentação parece, mas não é um exercício solitário. Dela participam ou nela interferem uma multidão de pessoas, como minha história exemplifica bem. O principal personagem é, com certeza, seu companheiro ou sua companheira. Uma das cenas mais lindas que levarei para sempre na memória foi minha primeira tentativa de amamentação, ainda na maternidade. O bebê procurava o bico, eu tentava encaixar, a enfermeira tentava orientar e, de repente, surgiu mais um par de mãos tentando ajudar naquela confusão. Era o meu marido, que até hoje nos faz companhia em muitas mamadas.

Das lições dessa primeira viagem: bebê recém-nascido chora mesmo, por ter sono e não saber dormir, por estranhamento ao mundo fora do útero, por cólica e gases, por um milhão de fatores que nem sempre entendemos. Confie no seu leite se a balança estiver indicando isso também. Os pais pagariam o que fosse por uma vacina com os benefícios de proteção do leite materno. Viva o aleitamento!

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