Uma vida com propósito

*Por Paula Santana, especial para o Mães em Rede

Domingo. Oito e meia da noite. Avenida Presidente Vargas, centro do Rio de Janeiro.

Estaciono em frente ao prédio conhecido como “Balança, mas não cai”. Uma fila de pessoas se forma na porta da minha van. Transporto um grupo chamado Ruah, que distribui comidas, roupas e cobertores pela cidade. É a primeira vez que faço este tipo de trabalho e tudo me chama atenção. Por exemplo, a maneira doce como os “famintos” se comportam diante de nós. Outra: a atitude das oito pessoas que estão dentro do meu carro, num domingo à noite, para servir ao próximo.

Ruah significa “Vento”, “Sopro do Espírito Santo”. Me chama atenção, também, o fato de a maioria dos moradores de rua ali presentes serem do sexo masculino. Do volante, observo a engrenagem da coisa toda e pensamentos invadem a minha cabeça. A quantidade de pessoas vivendo na linha da miséria é uma delas.

A palestra sobre “A determinação para achar o sentido da vida”, do Eduardo Marinho, é outra. Quem puder, vale assistir o vídeo no youtube. O Eduardo acredita que a pobreza é fomentada, lucrativa para alguém, em algum lugar, e que a vida sem um propósito não faz o menor sentido. Eu concordo e poderia divagar por horas, não fosse uma realidade negra, com pouco mais de sete anos, saltitante, surgir na porta do meu veículo pedindo uma maçã, me arrancar do transe.

Quando eu percebi, já não estava mais no lugar do motorista: estava entregando a fruta na mãozinha da criança, na calçada do Balança. Yasmin é o nome da garotinha e com um sorriso nos lábios e brilho no olhar, me diz que quer ser enfermeira.

– Tia, você acha que eu posso? Que eu consigo?

E antes mesmo de qualquer resposta minha, ela aponta:

– Olha, tia! Essa é a minha irmã Joana, o meu irmão Hugo, o bebê e a minha mãe. O nome da mamãe é Adriana!

Do nada, uma família igual à minha se materializa na minha frente.

É tipo um espelho.

Uma empatia natural surge entre eu e a Adriana. Somos duas mulheres da mesma idade, ambas com quatro filhos, todos do mesmo pai, mesmo casamento, são muitas coincidências e a conversa flui, é claro. Adriana ficou viúva recentemente e para sustentar a filharada vende balas no centro da cidade. Pergunto se os meninos estudam e ela afirma que faz questão do colégio, mesmo que a casa seja a rua. O bebê, de cinco meses, é tão risonho quanto os irmãos e, pequenino, já carrega nas perninhas botas ortopédicas. São todos muito alegres, apesar da condição e fica difícil para mim não fazer uma comparação entre o meu círculo social e a postura dessa gente.

A palavra “entediado” é constantemente citada pelos jovens da minha convivência. Se pararmos para pensar, isso é muito selvagem! Cogitar a possibilidade de a pequena Yasmin não concretizar o sonho da enfermagem faz um buraco crescer no meu estômago. A condenação que é imposta aos que nascem fora de um contexto me afeta.

Diante da pequena Yasmin, no meio da Avenida Presidente Vargas, num domingo à noite, eu sinto que somos todos um. Sinto que se a família da Adriana ganha, eu também ganho. Se eles perdem, eu fracasso igualmente. Sinto que a vida sem um propósito não faz o menor sentido.  E o meu, com as crônicas, é o de compartilhar as histórias que cruzam o meu caminho, como a da pequena Yasmin.

Sobre o Ruah
– Saídas uma vez por mês para distribuir comida e mantimentos a moradores de rua.
– Central de arrecadação na Paróquia São José (Avenida Borges de Medeiros, Lagoa)
– Responsáveis: Padre Omar e Dóris
– Necessidades: material de higiene íntima, cobertores, descartáveis e mão de obra para ajudar na cozinha.

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