Nossa escola

Semana passada, Antonio, pai de uma aluna da quarta série e de outro da segunda, agrônomo por profissão e entomólogo por paixão, tirou um dia de folga do trabalho para dar várias palestras (distintas para cada série) sobre insetos. Trouxe livros, fotos, microscópio e, a grande atração, vários insetos que as crianças puderam ver, como as lagartas que se transformariam em borboletas, e até tocar, como os incríveis bichos-pau. Uma classe que encantou a todos, que para a alegria de Antonio terminou com várias crianças dizendo que queriam ser cientistas quando crescessem. Sorte nossa ter um pai com estes conhecimentos, mas a participação voluntária na escola não é excepcional. Na verdade é o habitual na escola pública. O que me dá muito no que pensar sobre a mudança de mentalidade que precisamos ter, quando pensamos sobre qual deve, ou deveria, ser a melhor educação para nossos filhos.
Na nossa escola, o pai e mãe que queiram e tenham alguma habilidade especial em algo, ou simplesmente vontade, aporta o que pode. Tem pai que é jardineiro e ajuda no cuidado das rosas, tem outro que é pintor e nos guiou na pintura do pátio, tem mãe atriz que coordena o grupo de teatro, tem pai bailarino, que organiza a festa de carnaval, tem pai técnico de som que coloca a música na festa de Natal, tem mãe que cuida da biblioteca, ajuda a pintar as crianças nas festas, enfim, que meter a mão na massa é o normal. Teve até um pai militar, que ficou quatro meses destinado na Antártida, que quando voltou, deu palestra sobre pinguins.
Aqui não vale a desculpa de que meu horário de trabalho não me permite. Porque não é possível que, em todos os anos que nossos filhos passam na escola, em nenhum deles, a pessoa possa ter tirado uma manhã ou tarde para ajudar em algo. Aqui nós, os pais (com as exceções de praxe), não esperamos que a escola dê tudo. Como se não nos dissesse respeito: eu pago para não ter que me preocupar. Quero que outro me solucione um problema. Pago um serviço e ainda faço cara feia para ir nas reuniões . Claro que também a mentalidade da escola permite esta colaboração. Também é comum ver que em muitas escolas a direção não gosta muito da ideia desta troca. Parece uma ingerência no trabalho do outro. Também vejo, no caso dos serviços públicos no Brasil, é a espera para que o governo faça algo. Quando o governo fizer, quando a prefeitura vier… como se aquilo não fosse nosso, não fosse de todos. Quando uma criança vê que foram os seus pais que, em uma manhã de sábado, pegaram uma brocha e um pincel e ajudaram a pintar os desenhos que decoram os banheiros do jardim de infância, o mais provável é que ajude a cuidar deste banheiro.
Claro que a escola pública espanhola não é perfeita, muito menos o paraíso. A forma de ensinar ainda é bastante tradicional, com provas desde a primeira série (embora as crianças não saibam que estão fazendo prova), muita memorização, pouco espaço para as artes, por exemplo. Mas de todas as opções educativas que pensamos para as crianças, estamos felizes com esta escolha. Porque se o que queremos é o crescimento dos nossos filhos como cidadãos, creio que damos para eles mais que exemplos. Porque a escola das crianças é nossa, mas também é do vizinho que não tem filhos, dos que já estão com os filhos na faculdade, dos que ainda vão ter, porque estamos formando parte da nossa sociedade. Um pouco de tudo está ali dentro. É nossa obrigação cuidar-la.

Antonio com a garotada

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