O nosso quintal

“Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade.”
Manoel de Barros

Eles já se acostumaram. O Brasil brota na sequência de horas insones, enfurnados dentro de latas compridas, com um estranho poder de arremesso para o lado de lá. Uma espécie de pó de pirlimpimpim, que não os leva ao Reino das Águas Claras, mas à terra onde criam vínculos com a eternidade: as suas pessoas, as suas raízes, uma história que já era deles, mesmo antes de existirem.

Bento lembrará por longos anos desse reencontro com Iara, a amiga que o acompanhou para “furar as ondas grandes” em umas férias de abril, no Brasil. Ou da descoberta da menina Sofia, casualmente, na sala de espera de um consultório médico: “mamãe a gente gosta das mesmas coisas!” Tive a impressão de que ficariam horas e horas devaneando juntos, sobre um mundo inteiramente imaginado, de um jeito tão particular e comum àqueles dois. Mal sabem eles, que se conhecem desde as primeiras trocas de fralda no parque.

Vicente lembra de Digo sempre que se depara com as inúmeras peças, que herdou do amigo mais velho. Dessa vez, trouxe um meião do Flamengo e sempre que o veste, abre um sorriso grande: “Digo é tão generoso, né mamãe?”. E desde que voltou de viagem, não há um dia sequer que não mencione João, Aninha ou Lelê. Eles são mais do que sangue, são seus principais ídolos: “Aquele dia na casa do Guarujá, em que ficamos horas jogando bola com os primos, foi o melhor de toda a minha vida”.

O Brasil ocupa dentro deles este lugar mágico, onde não passam férias, mas vivem uma outra vida. Em que dormem pouco, se acabam entre festas, pizzas, churrascos e viagens em bando. Em um convívio sem cotidiano ou freios. Perto dos primos, com mimos intermináveis dos avós e na companhia de amigos que conhecem os mistérios de ser de onde eles também sentem que são.

Não é à toa que semana passada acordamos com o relato de um sonho bom: “Bento e eu pegamos carona em um vento forte. Fomos ao Brasil para encontrar a turma toda, depois voltamos felizes”. É bom saber que gostam de voltar para onde, hoje, é a nossa casa. E que, seja em sonho, ou em conversas, os dois também têm a necessidade e a abertura para elaborar sentimentos sobre um Brasil que aparece e não desaparece, mas fica mais vivo dentro deles.

Temos a clareza de que foi rápido demais. Voltamos com a estranha sensação de que o feitiço do tempo empurrou a areia da nossa ampulheta. Faltaram conversas íntimas importantes, papos sérios sobre política, saúde e futuro. Encontros com tios distantes, idas à feira para comer pastel com o tio/padrinho, o raro banho de rio em família, a companhia em águas calmas dos que são nosso passado e sempre serão o nosso presente.

Por isso, já começamos a pensar como e quando voltar. Outro dia discutíamos a hipótese de chegar por Brasília, para esticar uns dias na casa dos primos, perto da Chapada. Sem perceber estava eu, de novo, reservando a eles um Brasil de sonho, quando fui interrompida: “Mamãe, Brasília nem pensar! Vai que encontramos o malvadão do Temer na rua.”

Haverá um dia, não muito distante, em que conversaremos sobre todo este resto, o Brasil que eles ainda não querem conhecer. Mas antes deste dia chegar, que guardem bem este quintal mágico dentro deles. Que tragam por esta vida de Globetrotters, a mala cheia de pedras fundamentais, de histórias e memórias que fortalecem o sentimento de serem, sim, brasileiros. Porque chegará o tempo que para lá deverão voltar, e só se tiverem dentro deles a lembrança do quão especial é aquela terra e a nossa gente, poderão querer ficar e tentar fazer dela um lugar melhor.

Um filho de cada irmão. Três primos juntos. No mesmo quintal da nossa infância.

Comentários

  1. Mais uma de suas delícias , minha menina querida! Diz a música que ‘o coração é o quintal da pessoa’ …Ah! como acredito nestes nossos quintais, tão repleto de sensações que o tempo só fará apurar. O gostoso é saber que fica – sempre – o gosto de quero mais, o sabor do ‘morango com sugar’, das conversas de banheiro , dos olhares e risos que falam mais que milhares de palavras. Um sonho de Zé Pestana e Zé Leitão, entre os olhares complacentes de Brigite, a vaca voadora e Genésio, o burrinho que come nuvem prá matar a sua sede, quando voa. Fica um gosto de ‘água de barro’ . Fica a certeza do chulé da Abelha Frederica entre os voos de um impossível aerobú, cor de bróbra! Beijos, abraços quentinhos , do fundo do meu quintal , cheio de frutas sumarentas.

  2. Bibi,
    Assim é Portugal pra mim. Nunca vivi lá. Mas sinto como se fosse meu quintal. Alimentado pelas memórias da infância dos meus pais e as infinitas cartinhas que escrevia para meus avós de além-mar, quando criança.
    Obrigada pelo lindo texto
    👏🏻

  3. Lindo demais! Quanta alegria ao ler e reler o que esses pequenos que tanto amam levaram no coração. Obrigada filha por sempre nos presentear com sua sensibilidade e sabedoria! Saudade!

  4. Bibica, estou no táxi, num trânsito interminável, em prantos e rindo. O motorista até olhou para ver se está tudo bem rsrs. Caindo na real que estou em TPM …
    Que bom saber que toda a sua preocupação com as raizes foi elaborada. Nada como o tempo e a observação. Até logo por aqui minha amiga irmã. Saudades com vc por sempre por dentro. 🌹

  5. Amei cada letrinha e me emocionei com a introdução com as palavras de Manoel de Barros. Porque é isso aí; cravado na gente mesmo, Bia. Teu texto é lindo. E diz pros meninos que em Brasília, quem vai estar lá sou eu :).

    • Dear Fi, thank you so much for your super effort of reading this text in google translator. I still can’t believe you’ve done it. And thank you for your kind words. I’m looking forward to our next get together.

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