Dá para ser otimista?

Quem não está preocupado é porque não está bem informado. É o que dizem por aí e eu, como tento ser uma pessoa bem informada, ando muito preocupada. Motivos não faltam: sobreviver financeiramente em uma crise econômica que já dura tanto tempo que cronificou, ver as mudanças rápidas do mundo tecnológico sem saber bem onde tudo vai parar, ou se vai parar. Os passos atrás na política e conquistas sociais tanto do Brasil, quanto do mundo. Vide Trump e suas políticas retrógradas e agora até mesmo na Itália, com a união da Liga Norte com o Movimento Cinco Estrelas, estao prometendo a expulsão imediata de não sei quantos milhares de imigrantes. Sem falar no Brexit, nos fascistas reeleitos na Hungria, na crise eterna do governo espanhol com a Catalunha, isto para ficar apenas nos problemas da velha Europa. Que mundo é este que espera nossos filhos?
Mas tem mais: a violência no Brasil, que assusta, fere e mata. Na volta de doenças que já tinham sido eliminadas das grandes cidades, com a febre amarela. Junte a isto a preocupações cotidianas: criar filhos educados, empáticos, felizes, preparados, autônomos, independentes, com habilidades para viver neste novo mundo em eterna mudança e, ao mesmo tempo, querer protegê-los para que aproveitem sua infância o máximo possível.Ufa!
Você ficou cansado (a)? Eu também. Não me surpreende quando leio que Rivotril (popular remédio para ansiedade) é um campeão de vendas no Brasil. Ainda não estou precisado de remédio, mas ando cansada neste final de ano letivo, com tantos medos e preocupações por coisas que não controlamos. Está difícil manter meu lado otimista. Mas será que temos ainda razão para sermos otimistas? Acho que sim, apenas temos que buscá-las com um pouco mais de afinco.
Mesmo com todos os problemas mundiais, apesar do nosso vício em más notícias, na verdade vivemos em uma época com muito mais liberdade que outras muito próximas a nossa. Pelo menos aqui por estas bandas. Liberdade religiosa, conquistas feministas, acesso à saúde, à educação, entre muitas outras coisas que nossos avós nunca sonhariam. Pelo menos não os meus. Não tem muito tempo uma mulher teria que se sujeitar ao famoso teste do sofá por um papel no cinema ou na TV. Muitas pessoas saberiam do caso e, em vez de achar que o homem que obrigou a mulher a isto era um criminoso, falaria mal da mulher por ter se submetido. Hoje se fala abertamente em crime, violação. O empoderamento feminino é uma realidade. Falta muito? Claro que sim, mas acho que isto é motivo para otimismo.
Já nossos filhos, creio que viverão em um mundo que lhe exigirá muitas habilidades que nós não temos, mas eles sim têm. São muito mais adaptáveis às mudanças, resilentes, com mais recursos para solucionar o que lhes surja pelo caminho. Com outras preocupações que na nossa época não tínhamos, como a ecologia, cuidado com a alimentação, a igualdade entre os sexos, a luta contra o racismo, etc. Dizem que eles vão viver pior, porque não terão mais o emprego para a vida inteira, que o estado de bem estar vai acabar, que os robôs vão roubar todos os seus trabalhos e sei lá mais quê. Mas quem sabe nasça com eles uma outra ética para o trabalho, que viver não seja sinônimo de acumular bens. Que tenham outro modo de se relacionar com o mundo. Menos agressiva. Menos destrutiva que a da nossa geração. E muito mais solidária. É só isto que espero e torço.
Sim, porque além de dar amor e apoio, nosso controle é muito limitado. São tantos fatores nesta equação que é impossível saber o que vale, o que entra, o que sai. Sem contar com o acaso, que muitas vezes pesa mais que qualquer outro. Não sei, tento ser otimista debaixo do sol desta primavera ainda fria. E confiar. No acaso, na sorte, nos deuses, em mim, nos meninos, na família. Para não estar tão cansada e manter o Rivotril ainda longe.

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