Relatos de uma viagem com Maria

Viajar é mesmo uma das melhores coisas da vida, adoro essa definição do Ítalo Calvino: “No curso da viagem há sempre alguma transfiguração, de tal modo que aquele que parte não é nunca o mesmo que regressa”.

Ao mesmo tempo que conhecer outras culturas amplia nossa visão de mundo sinto que também nos aproxima da nossa, parece que vamos nos apropriando mais de quem somos.

Já conhecia Amsterdam, mas dessa vez conheci um outro lado, talvez o lado B. Eu particularmente adoro os lados Bs da vida, lugares pouco explorados, menos turísticos, mais “escondidos”. Um dia meu afilhado, quando tinha uns 8 anos, no caminho da minha casa (no Rio), me falou: Tia Paula, você sempre mora em lugares diferentes, escondidos. Eu mesmo não havia feito esta relação, mas fez muito sentido. Por outro lado, adoro ser encontrada, conhecer pessoas, observar sobre as diversidades da vida.

Estes dias na viagem, reparei muito sobre o “trânsito”, penso que a forma como funciona em cada cidade, comunica muito sobre os valores e as formas de relacionamento do lugar.

Quase morri algumas vezes em Amsterdam, rs, atropelada por bicicletas que se locomovem como se não houvessem pedestres. Muito diferente de Lisboa, onde mal chego perto da faixa e tudo para, me sinto tão segura e tranquila.

Na frente do apê onde nos hospedamos em Amsterdam, tinha um dos parquinhos mais bacanas que já fui, nunca vi Maria tão feliz, quando chegávamos na entrada ela saía andando com os braços levantados e gritando de alegria. Tinha tudo que eu mais aprecio, elementos naturais, simplicidade, crianças de diferentes raças e cores, tudo junto e misturado, sentia-se no ar a liberdade do brincar e de correr “riscos seguros”. Maria caminhava com autonomia, demarcando aquele mundo que ela sentia que tinha sido feito para ela, assim como todas as crianças que lá brincavam. Foi mágico!

Cada vez penso mais e valorizo a ocupação de lugares públicos, tudo fica tão mais democrático e vivo.

 

Viajar faz isso com a gente, nos tira literalmente do lugar, e por falar nisso, outro tema é avião, apesar da paixão por conhecer o mundo, cada vez detesto mais aeroporto, e todo pacote que ele demanda. Voltei com um novo critério no bolso, só viajarei sozinha com Maria, até 2 anos, para países que “trabalhem com prioridades”, como sofri voltando dessa vez, além da companhia aérea ter entrado em greve e eu ter que comprar nova passagem para conseguir voltar, tive que enfrentar filas homéricas para passar pelo controle de segurança, Maria não chorava, ela gritava, me pediram para tirar até sapato, coisa que viajando internamente por aqui nunca havia acontecido. Não tive ajuda nenhuma, pelo contrário, tive que entregar o carrinho antes da porta do avião, novidade também. Só sei que sentei na cadeira do avião e quase desabei, tava exausta. Que delícia entrar e receber o sorriso das aeromoças portuguesas da TAP, me ofereceram ajuda, e já me senti mais em casa. Impressionante como em Portugal as pessoas são carinhosas com as crianças, velhinhos então, sempre puxam papo e acariciam a Maria, no começo até estranhei a “invasão”, depois passei a valorizar o afeto.

Enfim, 2h30 minutos de voo, cantando e inventando distrações porque dessa vez ela não dormiu, quando pousamos, a saga novamente de receber ou não o carrinho na saída do avião, é sempre uma surpresa, e dessa vez, lá estava, apesar de não estarmos no finger e sim pegando um buzunga longe prá dedéu. Quando o ônibus parou, e saí toda carregada, com Maria presa em mim na mochilinha (que nestas horas ajuda muito), fui abrir o carrinho e veio uma senhora, que me parecia holandesa, me oferecer ajuda, foi bom para apaziguar um pouco a difícil saída de lá.

Tudo fluiu lindamente, mala em mãos e ao me dirigir para fila de táxi, que estava homérica também, oiço (como eles dizem aqui) um senhor gritando, me chamando e quase me dando uma bronca, “Ei, não viu que tem uma placa de prioridade aqui não? ”, venha por aqui, me disse enfaticamente, em segundos estava dentro do táxi e em minutos na porta de casa.

Viajar é bom demais, chegar em casa também.

 

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