Museu é Lugar de _______________.

 

Por Roberta Cajado

 

Complete a frase acima como desejar. Tente não ler adiante. Não censure as primeiras palavras que vem em sua mente. Aceite, mesmo que ache sua resposta boba. Talvez você tenha pensado: “Museu é lugar de turista, lugar de contemplar, lugar de silêncio, ou pode ter pensado também: Museu é lugar de velho, lugar de ir com a excursão da escola, lugar de aprender… Enfim, seja lá o que for, toda reflexão é válida.

Eu completaria a frase e o título desse post assim: Museu é Lugar de Gente Curiosa. A seguir, penso: Existe gente mais curiosa que criança? Logo, Museu também pode ser lugar de criança?

Eu cresci escutando muito sobre as barreiras entre lugar de criança e lugar de adulto e até hoje me vejo lutando com alguns desses tabus. As vezes, penso que em alguns lugares a criança realmente não aproveita tanto quanto nós e pode acabar até nos atrapalhando.

Mas voltemos ao assunto Museu. Se estivéssemos em um debate, alguém poderia dizer: Mas claro que museu pode ser lugar para criança. Tem exposições incríveis que são interativas, educativas e coloridas criadas especialmente para os pequenos. Sim, essas exposições são ótimas mesmo, mas me refiro a exposições que não são necessariamente interativas e coloridas.

Antes de começar, já abro um parênteses dizendo que não estou aqui para dizer que criança deve ir a qualquer exposição. Existem de fato obras que tratam de imagens, performances e vídeos inapropriados para criança. Cada um que use do seu bom senso para isso!

Sou formada em Artes Visuais e sempre tive paixão por História da Arte. Meu interesse começou desde cedo, mas foi quando tinha 13 anos, em uma visita a França com meus pais, que a paixão explodiu. Era tanto museu que ficávamos todos exaustos no final do dia. Mas eu adorava e de manhã estava pronta para o próximo. Na época pensei até em ficar por ali, mas lembrei que era totalmente dependente dos meus pais e tal peripécia não seria possível. A viagem foi uma aventura sem luxo, pois as economias de meu pai eram mesmo para visitar esses lugares. Acho que a refeição mais típica e chic que fizemos por lá foi comer um crepe de Nutella no parque, o que também me fez ficar viciada no tal creme de avelã e chocolate por anos. Tudo isso para dizer o quanto a arte, fora e dentro dos museus, me influenciou e o quanto sempre quis passar isso pra Nina. Em alguns desses museus, ficava me imaginando nas determinadas épocas, ora renascentista, ora barroca, ora impressionista. Pensava nas roupas, na comida, nos móveis, em qual era a diversão da época, qual música eles ouviam… A obra era só um canal para viajar em outro tempo/espaço.

Sempre morei em cidade grande e, como falei um pouco no post passado, vamos a museus e galerias em tudo o que é canto desde que Nina fez 2 meses. (Mês que vem já faz 2 anos!). Quando bebê, acho que ela apreciava o silêncio e dormia no carrinho. Com uns 4 ou 5 meses percebia mais as coisas ao redor, então eu parava por um tempo em frente de cada obra e ia contando as histórias, verdadeiras e inventadas. Quando começou a andar, adorávamos levá-la até por conta do espaço que é sempre tão amplo (Diga-se de passagem, um dos melhores programas pra dia de chuva e neve). Ela ia de um lado pro outro, parava em frente algumas obras, olhava e depois continuava. Depois de um ano, já sabia apontar e localizar formas e figuras conhecidas… Tanto eu quanto ela nos deleitávamos. Hoje ela me mostra coisas que meu marido e eu não vemos e, as vezes, observa uma pintura, escultura ou performance por mais tempo nós. Vez ou outra, o entusiasmo pelo simples espaço físico é tamanho que ela só quer saber de andar, subir e descer escadas e sentar nos bancos em frente as obras pensando que é gente grande. “Conversamos” bastante sobre as formas, cores, pessoas, expressões. Museus são também um prato cheio pra quem julga não ter assunto com criança de 2 anos.

Recentemente, li uma matéria que falava sobre como ajudar crianças a se apaixonar por exposições não-interativas. Em um dado momento, a autora da matéria responde para uma amiga que pergunta se a exposição que ela está indicando é interativa (em outras palavras, a amiga quer saber se o filho pode tocar nos objetos). A autora, que é educadora, responde que quando uma exposição tem muitos elementos e detalhes a serem observados, “somente o ato de observar torna-se a mais profunda interação.” E é exatamente isso.

Quando chamamos a atenção dos nossos filhos para as cores, a escala dos objetos, os tipos diferentes de material, a história… Tudo isso os leva a um outro nível de observação. Leva também à investigação através dos olhos e do pensamento, ao invés do simples tocar. A criança aprende que nem tudo pode ser tocado e nós aprendemos que a imaginação é uma arma que, quando bem trabalhada, tem papel fundamental no desenvolvimento. O toque também é importante, mas convenhamos que já é bastante estimulado por diversas tecnologias, onde quase tudo é literalmente “touch” (IPhones, IPads, brinquedos eletrônicos, etc).

A meu ver, entendo então que a missão do Museu, Galeria e Instituição de Arte na vida das crianças (e na minha) vai além da cultura. Vai além das discussões sociais e políticas contemporâneas. A missão maior é mexer em nossas estruturas. Nos fazer parar. Instigar o olhar, a curiosidade, o pensamento e a concentração.

Entre outras coisas, Museu é (sim) Lugar de CRIANÇA!

Comentários

  1. Sinto que poderia viver por um bom tempo aí.. adoro o jeito que você descreve sua filha Nina. Mas você sempre teve as artes como paixão.. quero muito passar para minha neta essa vida de museus e passeios .. mas sei que vocês são privilegiados.. e quem sabe consigo vivenciar um pouco do que Nina já conhece com minha neta Luísa… adorei seu texto Roberta.. como descreve tão lindamente.. bjosss de quem gosta muito de vices😘😘😘😘

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