Sobre ser mãe com pouco

Colaboração especial de Roberta Cajado. Paulistana, apaixonada por São Paulo, mas que há seis anos mudou para Nova Iorque e assumiu o Brooklyn como a sua “casa”. Ela que chegou para ficar uma curta temporada, conheceu o marido na primeira semana e não saiu mais. Hoje Roberta é mãe da pequena Nina e já começou a retomar a sua vida profissional como freelancer, fazendo direção criativa para algumas marcas de moda.

 

O primeiro post vem sempre cheio de questões e inseguranças. Uma delas é: “O que será que posso escrever aqui que já não tenha sido escrito, ou dito, por outra mãe?” Hoje em dia tem tanta tribo diferente de mães, que assuntos novos e intocados são praticamente inexistentes. O que muda é a forma que se vê e que se experimenta uma nova vida ao nosso lado. Por isso entendi que, escrevendo novidade ou não, temos todas o privilégio da experiência e a honra de compartilhá-la.

Pois bem, foi assim que decidi dividir uma das minhas experiências mais ‘ricas’ enquanto esperava a chegada da Nina. Escrevo ‘ricas’ porque foi bem ali, no meio de um período nada rico da minha vida, que tudo começou. A gravidez foi muito desejada mas um pouco antes de engravidar, a galeria de arte em que eu trabalhava fechou. De repente, me vi sem emprego, gerando um outro ser que precisaria, achava eu, de muito mais do que poderíamos oferecer.

Em um daqueles dias de desespero, lembrei-me de uma amiga que disse algo assim: “A única coisa que um bebê precisa de verdade é da mãe, do leite, de algumas poucas roupas e de higiene – todo o resto é … resto.” Naquele momento, a experiência desta amiga começou a fazer todo sentido e nós, que já tentávamos viver uma vida mais simples e sustentável, começamos a fazer desse pensamento, nossa realidade.

Moro no Brooklyn, Nova Iorque, em um apartamento de um quarto e meio. Esse meio quarto é do tamanho de um closet pequeno e antes da Nina era usado como estúdio. Desmontamos tudo, doamos muita coisa e fizemos um quarto de hóspedes para receber minha mãe nos primeiros 40 dias. O quarto da Nina? Era no nosso quarto mesmo, montamos um cantinho e ali ela ficou por um bom tempo. Durante os primeiros meses, foi maravilhoso porque a tarefa de levantar da cama, amamentar e voltar a dormir foi simplificada. Roupas? Percebi que ganhar itens usados de amigos e família é tão ou mais incrível do que fazer enxoval novo em Outlet aqui nos EUA. Sou daquelas que acredita que na roupa a gente carrega memória e não tem nada mais legal que ver a roupa da filha continuar contando histórias pelo mundo. No nosso caso, posso dizer que nos primeiros 10 meses, 90% das coisas da Nina já tinham vivido outras vidas. Ah, e chá de bebê, não teve? Ô se teve! A maioria dos presentes foram daqueles bem úteis, tipo fralda, banheirinha, pomadas, livros, colchão pro berço etc. Os outros presentes foram feitos a mão por amigas e primas, muito prendadas. Os itens mais caros, como carrinho, bebê conforto, cadeirinha, também foram passados para nós por outras famílias.

Agora, a parte polêmica… Não temos máquina de lavar roupas, muito menos de secar, em casa. O quê? Mas como lidar com os “acidentes” do bebê que no começo acontecem quase que diariamente? Ah, lava na mão, na banheira, no balde, na pia, onde for. Estende onde tiver sol, na sala, no quarto. E não é que funcionou? Sobrevivemos e até hoje lavamos roupa no máximo duas vezes por semana (o planeta agradece). Aliás, o crédito vai para o marido, porque essa missão é dele.

Depois dos primeiros 40 dias, minha mãe voltou para o Brasil e eu fiquei de luto uns três dias… Logo depois, levantei, sacudi a poeira (literalmente, porque tinha que limpar a casa também) e fui vivendo, um dia após o outro, com a filhota no canguru; subindo e descendo as escadas do nosso apartamento que fica no terceiro andar de um prédio sem elevador (risos).

Fazíamos tudo juntas. Muitas vezes, só eu e ela mesmo. Gastávamos mais de uma hora para ir à praia de metrô, só para ficar ouvindo o barulho do mar. Visitamos diversas exposições, fizemos piqueniques com amigos, brincamos no parque e nas praças. Viajamos sozinhas para o Brasil e quando tínhamos um extra, escapávamos em família para o campo. Algumas vezes, essas aventuras tornavam-se perrengues. Mas por muitas e muitas vezes, esses perrengues transformaram-se em momentos sublimes e intensos, com muita emoção, muito amor e poucos apetrechos. Essas experiências nos trouxeram um sentimento sólido, orgânico, em relação a esse amor. Com recursos limitados ao nosso redor e sem tantas distrações do “preciso disso e daquilo”, meu marido e eu acordamos para o que de fato significava, permanecia e crescia.

O tempo voou e agora é um pouco mais curto para nossas aventuras. Nina tem quase dois anos, já vai à escolinha pela manhã e eu voltei a trabalhar meio período. Quando olho para trás, choro agradecida por perceber como é possível experimentar tanto, com tão pouco.

 

 

Comentários

  1. Maravilhosa história! Sigo vcs no Insta e são uma família linda! Parabéns! Espero conhecer vcs um dia, junto com meu pequeno de quase 2 anos tbm rs! Que Deus continue os abençoando e dando forças, amor, saúde e sabedoria! Bjus!

  2. Eu sabia que você tinha que escrever sobre essa experiência, Rober! É maravilhoso de ler! É um estímulo e uma inspiração para as pessoas que se perdem na “necessidade”de ter tantas coisas que não fazem sentido para uma criança.
    Você são maravilhosos!!! Love u!!!

  3. Ro achei maravilhoso seu texto. Me arrancou lagrimas aqui no trabalho mesmo (pq resolvi ler num intervalinho pro cafe).
    Nos sabemos muito bem o que essas memorias significam para a nossa vida. Tao boas memorias tenho da nossa infancia onde nos divertiamos com tao pouco ne?
    Muito lindo exemplo vcs estao dando para a Nina e para os amigos. Muito orgulho da mamae linda que voce se tornou. Beijo

    • Lena! Que delícia ler seu comentário e saber que estamos conectadas, mesmo de longe. Nossas memórias são muito boas e tenho muito orgulho de ter aprendido tanto com vocês na infância. Sua mãe e vocês sempre foram um exemplo de sabedoria.

  4. Aaa minha amiga….sabe o que entendo lendo essa matéria…..que com as mudanças e transformações da vida, vai prevalecer a nossa essência, nossa verdade que é o que realmente importa. E você sempre foi assim, bastou a vida lhe apresentar uma necessidade e você mostrou a sua verdade. Que possamos aprender com sua história e reter a simplicidade e amor aos pequenos momentos da vida. Te amo 💜

    • Olha, sem palavras viu… Obrigada por registrar aqui sua impressão valiosa sobre o texto e continuar servindo de inspiração pra mim. Te amo minha amiga.

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