Pequena grande existência

Muito antes do tilintar dos bisturis, ele se informa sobre a cirurgia que será realizada, prepara os instrumentos, organiza a mesa do procedimento, os remédios indispensáveis e também os que poderão ser importantes, caso a operação não ocorra 100% como o previsto. Também é responsável por manter a sala limpa, os equipamentos em bom funcionamento e a circulação livre dos espaços. É Gordon quem garante que tudo funcione, enquanto a equipe de cirurgiões e anestesistas focam no que mais importa: a vida do paciente.

Mas o assistente também recebe o sujeito em sala, aquele que passará horas (acordado ou não) em uma mesa gélida. É a sua delicadeza e calorosa recepção que tranquiliza cada vida que ali despenca fragilizada: “Você gosta de música? Que tipo de música você prefere ouvir?”.  Ele controla o volume e a qualidade do som, descobre notas de harmonia que inspiram e asseguram a intervenção precisa do clínico e a paz do clinicado.

Mas recentemente Gordon é o foco de uma revolução. Revolução que vem sendo conduzida com a união do time de médicos de um conceituado hospital na Inglaterra. Novas regras chegaram à casa pedindo que Gordon saia da equipe. Segundo consta, ele precisaria de cinco anos de uma especialização para atuar na sala de cirurgia.

Acontece que todos sabem que Gordon cresceu com apoio escolar e se formou a muito custo. Gordon passou grande parte de sua vida entre médicos, terapeutas e diagnósticos diversos e imprecisos. E não teria começado nesta equipe, se não fossem os cirurgiões a se encantarem com a peculiar curiosidade de um dos atendentes do café, aberto nas madrugadas pós-cirúrgicas do hospital. O franzino rapaz, que aos 28 anos ainda tinha jeito de criança e gestos desengonçados, se preocupava com a música que os doutores gostavam de ouvir, deixava o som baixinho, gostava de confirmar se as luzes não estavam acesas demais, se ficariam mais à vontade se apagasse algumas e os cercava de questões. Queria saber sobre as cirurgias do dia, entender como era o clima na sala, como faziam para que o doente não sentisse medo. “E como fazem quando ficam nervosos, quando percebem que é muito grave?”

Gordon sempre teve muito medo. Medo porque não entendia a vida como os outros em volta. Medo porque não aprendia tanto como os outros na escola. Medo porque aquelas letras dentro dos livros, todas juntas se misturavam, pulavam diante de seus olhos descontrolados, não formavam palavras, mas sons desconhecidos. Medo de não ter a mãe ou o pai para o ajudar. Medo de que, no futuro, não houvesse espaço para ele no mundo. Mas, depois de perder o pai, resolveu enfrentar o medo e o mundo.

Deixou a mãe na longínqua Ásia, onde passou quinze anos de sua adolescência/juventude, e voltou para Londres, lá tentaria arranjar um trabalho em algum café. Servir mesas era tudo o que sabia fazer e logo se encantou com a ideia de trabalhar em uma lanchonete, dentro de um hospital, ambiente que frequentou durante boa parte de sua vida. Gordon se achava pequeno. Minúsculo. Se escondia atrás de músicas, sonhos, bandejas. Gordon nunca sonhou que, um dia, se especializaria em alguma área de saúde. Que seria encaminhado, protegido e supervisionado por um grupo de respeitados doutores. Hoje, Gordon tem 33 anos e está só no começo do curso. Ele sabe que não será fácil conseguir o diploma, mas estuda com a certeza de ser peça importante na equipe de um hospital e morre de orgulho da carta de apresentação que o levou a concursado: “Membro fundamental para o trabalho e união da equipe ”.

Eu nunca conheci o Gordon, mas tive a sorte de encontrar sua mãe, Dona Ângela. Ela pediu licença para sentar-se ao meu lado na palestra de uma escola que eu visitava. Disse que estava ali por conta de seu neto, que tinha começado na escola recentemente. Muito decidida, já foi logo acrescentando que havia me observado fazendo perguntas ao diretor e ficou com vontade de me contar a história de seu filho, o Gordon. Contou. Foi-se embora e eu mal disse meu nome.

Acontece que na semana seguinte, dona Ângela sentou-se ao meu lado no trem. Só me reconheceu quando me apresentei. E eu tive a oportunidade de perguntar a ela, aquilo que mais intrigou: a razão de ter me contando a história de seu filho.

E ela me disse calma e firmemente: “porque eu aprendi que havia um lugar secreto e grandioso reservado só para ele. Porque ele une aquele grupo, e não há existência neste mundo que seja pequena ou menor. Não há um ser mais ou menos ordinário. Há apenas um existir insistindo em confiar naquilo que há de mais importante: somos todos humanos!”

Desci na estação com ela gritando, depois da despedida: “nosso terceiro encontro tem que ser mais longo!”. Não sei onde encontrarei dona Ângela, mas ela e Gordon estão comigo em todas as linhas que escrevo. Aquele “pequeno menino”, se tornou um grande homem, com todas suas vulnerabilidades, desafios, insistências e pequenas conquistas. Ou um homem ordinário, que traz toda a humanidade concentrada em um só corpo, principalmente por conta desta linda história.

Comentários

  1. Estórias de vida que emocionam e sempre escritas com tanto sentimento e sensibilidade.Vc sempre toca fundo Bia.Imagino o orgulho de sua mãe.💜🌸💜

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